vestígios de brasilidade

 

Vestígios de Brasilidade

26 de abril de 2011

Categorias: Artistas

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Vestígios de Brasilidade é o nome da exposicão que inaugura dia 06 de maio no Santander Cultural em Recife. 40 artistas brasileiros entre eles, Ana Elisa Egreja, Ana Miguel e Cadu, apresentam suas obras relacionadas a uma suposta identidade nacional. Leia abaixo o texto de Marcelo Campos;


"Apresentamos a exposição Vestígios de brasilidade como um convite vertiginoso, um rodopio por situações poéticas que nos relembrem um Brasil em pedaços, em marcas visíveis e latentes, misturadas, coletivas. Busca-se, então, uma narrativa alegórica a partir de sete núcleos: quarta-feira de cinzas, fetichismo, vento, preguiça, sortilégios, geometria e casa. Tais vestígios despontaram com o passar do tempo, deixando a arte brasileira com diversos fios de conexão. Um deles, a brasilidade. Como convite a um baile, a uma dança, abriremos a exposição com quarta-feira de cinzas: os vestígios do carnaval, confetes, serpentinas, fantasias. Nos vestígios da folia, apresentam-se surdos, instrumentos musicais do carnaval carioca. Os trabalhos ganham o caráter catártico e melancólico. Assume-se esta festa popular, “turistificada”. Também alegórico é o corpo negro na performance, deixando imprimir-se de preconceitos como camadas sutis e subvertendo-os pelo segredo de dominar a dança, o samba. Dos vestígios alegóricos, encaminhamo-nos, inevitavelmente, para o ornamental, a alegria na pletora de cores. A folia ganha sentidos de trabalho e fábula nas formigas que carregam confetes.


No mergulho orgiástico, surge o anti-herói. O fetichismo cria sensações sincréticas em símbolos, ritos e no corpo dos sujeitos. Evidenciam-se marcas mediúnicas nos transes católicos. Colocamos em jogo a subversão, hasteando bandeiras ao submundo, juntando Deus e o Diabo, criticando a repressão policial, com o anti-herói fugindo de corpo fechado. Erguem-se herdeiros dessa estética do subdesenvolvimento, agora, com a possibilidade de ganhar as ruas nas intervenções urbanas. A brasilidade, tão cantada na exuberância portentosa da natureza, hoje é apreendida como contrabando.


Para varrer os males, vamos chamar o vento. Invoquemos Iansã, dona dos ventos e das tempestades. O vento. A brisa, elemento mecânico e metafísico que faz vibrar as folhas, aciona o balanço da infância e produz os redemoinhos espontâneos, evocando os mitos nacionais da literatura.


Da preguiça, Macunaíma ganha a cena, nascendo nos livros costurados, no sono e na escultura malemolente. Uma preguiça sem caráter, invertendo a lógica da moral, convidando-nos a fabulações.


Do sonho, vamos à crença pelo encantamento, os pedidos de boa ventura: a magia das sete ervas, as flores no mar para Iemanjá, prática popular desde fins do século XIX, as procissões. O encantamento aparece na canção de Iemanjá, de domínio público. Sortilégios.


Por fim, recodificaremos a geometria. A partir de uma dupla herança, entre o construtivo e o popular, constroem-se ecos do modernismo aos trabalhos de hoje, como paradigma para o ilusionismo e o construtivismo contemporâneos.


As construções geométricas vão se tornando subjetivas, o casario flutua, como religiosidade, como ex-voto aos deuses do lar. Adentraremos a casa com a herança colonial e popular. Da presença intensa da colonização, o móvel austero cria raízes para mostrar a força de um espólio. Do sertão, a casa com varanda conquistada. Dessa possibilidade construtiva, agregamos sentimentos e valores afetivos erigindo totens, monumentos muitas vezes tão banais quanto as caixas de feira que, não por acaso, são construídas com pregos de ouro, assumindo, de vez, que a adversidade, uma terceira margem, é uma das nossas nobrezas."


Marcelo Campos


Vestígios de Brasilidade

Santander Cultural - Recife

visitação: 6 mai > 31 jul                   

terça > domingo: 13h às 20h 

 

Adriana Varejão      Guignard     Alexandre da Cunha     Vogler     Volpi     Antônio Manuel     Ana Elisa Egreja

Ana Miguel     Beatriz Milhazes     Bob Wolfenson     Brígida Baltar     Cadu      Carybé     Chelpa Ferro  

  Cícero Dias     Cildo Meireles      Delson Uchôa      Efraim de Almeida      Emmanuel Nassar      Ernesto Neto   Farnese de Andrade      Francilins      Glauco Rodrigues       Jannis Kounellis      José Rufino      Luiz de Abreu  Zerbini      Marcelo Gomes e Karim Ainouz       Marcius Galan Marcone Moreira       Mauro Piva       Nelson Leirner  Pierre Verger       Projeto Axial       Rivane Neuenshwander  e  Cao Guimarães     Roberto Lúcio       Ronald Duarte      Rosangela Ronnó      Sandra Cinto       Tonico Lemos Auad

Em maio de 2011, o Projeto Axial foi convidado pelo curador Marcelo Campos para produzir uma ocupação sonora em um dos espaços espositivos do Centro Cultural Santander em Recife como parte da mostra Vestígios de Brasilidade que reuníu mais de 40 nomes das artes visuais brasileira.