Axial (vol1) - Axial | encarte on-line

 

Ficha técnica:


Produzido por Felipe Julián.

Masterizado por Felipe Julián André Magalhães

Programação visual e arte do encarte:

Edu Marin Kessedjian, Daniel Trench, Mirela Marino



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Faixa 1 – PAPALOKO

(domínio público, canção de escravos do Haiti)



Papaloko ou sé van

Pousé-n alé

Nou sé papiyon

Na pote nouvèl bay agoué


E tou sa ki di biyin

Jé-m layé

E tou sa ki di mal o-o

Jé-m layé


Papaloko ou sé van éy

Pousé-n alé

Nou sé papiyon

Na poté nouvèl bay agoué


Paròl Papaloko, paròl ampil-o

Pousé-n alé

Nou sé papiyon

Na poté nouvèl bay agoué.






Faixa 2 – TAMANQUERO

(domínio público, coco da Paraíba anotado por Mário de Andrade)



Tamanquero quero um pá, quero um pá, quero um pá

Eu quero um pá de tamanco pr’eu calçá


Mas habitava Adão nesse jardim

Ai que Jesus pra ele tinha plantado

Ai mas um dia se viu triste isolado

Foi se queixar a Jesus dizendo assim:


A beleza que fizeste para mim

Ai não me dá prazer nem alegria

Jesus Cristo perguntou o que queria

Ele disse: Senhor o meu desejo

Ah é ver outro igual a mim porque não vejo

Um outro ser que me faça companhia

Ah é ver outro igual a mim porque não vejo

Um outro ser que me faça companhia


Tamanquero quero um pá, quero um pá, quero um pá

Eu quero um pá de tamanco pr’eu calçá





Faixa 3 – ORIKI DE OXUM

(música: Sandra Ximenez, letra: adaptação de oriki nagô-iorubá transcriado por Antonio Risério)



Água que vai para o mar

Teus cílios luzes para mim

Mãe suave, ave leve

Ave leve, eleva-me.





Faixa 4 – PAPADANMBALAH

(domínio público, canção de escravos do Haiti)



Roy, Papadanmbalah


Papadanmbalah, Danmbalah

Ou konnin n´sé pitit-ou Papa

Papadanmbalah, Danmbalah

Louvri Jé-ou pou gadé-n


Danmbalah éy

Mapé mandé ou

Koté ouap kité pitit ou-yo


Danmbalah roy

Fo ou vini ouè

Nan ki mizè pitit ou yé.


Roy, Papadanmbalah







Faixa 5 – ESPAÇO VAZIO

(música: Lincoln Antonio, letra: fala-poema de Stela do Patrocínio)



Eu era ar e tempo

Eu era ar e tempo, espaço vazio, tempo

Eu era ar e tempo, espaço vazio


Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

E gases puro, assim

Eu era ar e tempo


Eu não tinha formação

Não tinha formatura

Não tinha onde fazer cabeça

Fazer braço, fazer corpo

Fazer orelha, fazer nariz

Céu da boca, falatório

Fazer músculo, fazer dente


Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas

Pensar em alguma coisa

Ser útil, inteligente, ser raciocínio, fazer cabeça

Não tinha onde tirar

Eu era espaço vazio


Eu não sei como é que pode formar uma cabeça

Um olho enxergando, nariz respirando

Boca com dentes

Orelhas ouvindo vozes

Pele, carne, ossos

Altura, largura, força

Pra ter força

O que é preciso fazer


Tomar vitamina

É preciso vitamina.





FAIXA 6 – TORRE DAS MERCÊS

(domínio público, canção das caixeiras da Casa Fanti-Ashanti)



Lá na torre das mercês

meu olhar perdeu de vista, ai Deus

Lá no céu tem uma estrela

que faz as outras bonita, ai Deus





FAIXA 7 – BURITI

(música: Felipe Julián, texto adaptado: João Guimarães Rosa)



Trás noite, trás noite, o mundo perdeu suas paredes. Fere um grilo, serrazim. Silêncio.

E os insetos são milhões. O mato – vozinha mansa – aeiouava. Do outro mato, os respondidos. Um peixe espiririca. Um trapejo de remo. Um gemido de rã. O seriado túi-túi dos paturis e maçaricos, nos piris do alagoado.

Nunca há silêncio.



As ramas do mato, um vento, galho grande rangente. As árvores querem repetir o que de dia disseram as pessoas. Frulho de pássaro arrevoando – decerto temeu ser atacado.




No silêncio nunca há silêncio.


Se assoviaram e insultaram os macacos, se abraçam com frio. Tiniram dentes. Reto voa o notibó, e pousa. O chororocar dos macucos, nas noites moitas, os nhambus que balbuciam tremulantes. Se a pausa é maior, as formigas picam folhas; e as formigas que moram em árvores.


Uma coruja miou, gosmenta. A coruja quer colóquio.

Sapos se jogam de sua velha pele. Esses são feiticeiros.




O vento muda é para se benzer em cruz.




Há um silêncio, mas que muitos roem, ele se desgasta pelas beiras, como laje de gelo.


Se o senhor quiser ouvir só o vento, só o vento, ouve.

Cada um escuta separado o que quer.







FAIXA 8 – ANA NA CACIMBA

(domínio público, baião de princesas da Casa Fanti-Ashanti)


Ana mora na cacimba

Na cacimba, eh


Ana mora na beira do rio

Na cacimba, eh



música incidental: Tamandaré, Cacimba Nova  (melodia de catimbó da Paraíba, anotada por Mário de Andrade)


Tamandaré, cacimba noca

As água toda remói







FAIXA 9 – VÔ GUERÊ IEMANJÁ

(domínio público, tambor de mina de São Luís do Maranhão em verão de seu Bibi da Casa de Nagô)


Vô guerê Iemanjá

Vô guerê Iemanjá (Orixá)


Olorixá quer

Quereô qüe

‘ Lorixá gueriba


Colé colé mina mi enceô Iamanjá

Aba colé mina mi enceô Iamanjá




Faixa 10 – ORIKI DE IEMANJÁ

(música: Sandra Ximenez, letra: trecho de oriki nagô-ioruba transcriado por Antônio Risério com inserções de Sandra Ximenez)


Mar, dono do mundo, que sara qualquer pessoa.

Velha dona do mar.

Fêmea-flauta acorda em acordes na casa do rei.

Descansa qualquer um em qualquer terra.

Cá na terra, cala – à flor d’água, fala.


(Cada tua filha, uma ilha

Pétala n’água salgada

Lágrima cristalizada.)






Faixa 11 – IEMONJÁ

(domínio público, 2 cantos para Iemanjá)


Iemonjá awabô


Yemonjá awabô aiô

Yemonjá awabô aiô

Iagba ode ire sê

A ki iê Yemonjá

Iá koko pê ilegbê aiô

Odofi iassa ueré o

Iassa ueré o

Odofi iassa ueré o



Cântico do Candomblé da Casa Fanti-Ashanti


Iá o lejê lejô

Ia o ki é

Olomi/ Assessu

Iá querê o lodô a oiô

Iemonjá fore só

Corón guegué

Iá ca mamb’oridum mo jaê


Iemonjá

Oridum

Orilé

A oiô






FAIXA 12 - CANTIGAS D’ÁGUA

(Reisado de Alagoas, três canções de Mestra Virgínia de Moraes)



Oh minha gente eu vi

As nuvens virando eu vi

O vento ventando eu vi

A terra girar


Minha pegada se apaga

Naquela areia quem anda

Em terra alheia pisa

No chão devagar


Eu vou buscar Rei Salomão

João Quitel estava de lado

Eu abro os quatro cadeados

É com a chave do tesouro


A minha chave é de ouro

Eu dei à mestra Virgìnia

Abre-te sede divina

À minha mestra porque ela é tira-couro


Determinei subir no vento

Eu fui ao país da Lua

Arrecebi uma friagem tua

Eu vi a terra diferente


Um corisco ia passando de repente

Com o corisco eu me abracei

Desci pra terra eu aprantei

Aprantei pra nascer semente


O arco-íris bebe água lá no mar

Quando ele quer despejar

Ela por cima da terra


A nuvem gela faz sua circulação

Quando ela cair no chão

A gente apanha e bebe ela.





FAIXA 13 – SONO BOM

(música: Felipe Julián, letra: Sandra Ximenez)




Sono bom trás tua mão

pousa sobre o meu amor.

Eu me esqueço me refaço

descanso nos sonhos seus


como nuvem em tom de cinza

acima da tempestade.

Corpo transcriado em vento

ser do vento, umidade.


Aproximo etéreo ser,

sopro em sua majestade.

Me abandono, sono bom,

e recosto, noite calma,

coração no coração.


E se perdem nossas almas