Fórum do AXIAL

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Sistema brasileiro de proteção ao direito autoral impede artistas de ganhar dinheiro.

A legislação e o sistema autoral brasileiro simplesmente impede que artistas possam comercializar seus trabalhos musicais.

Vejam este caso:

Para fazer cópias de um CD em qualquer uma das fábricas como a Sonopress, por exemplo, o autor das músicas é OBRIGADO a filiar-se a uma sociedade arrecadadora tal como ABRAMUS, AMAR, SICAM SOCIMPRO etc.

Se você está associado a uma destas organizações, você não pode utilizar os os serviços de comercialização de sites como o Jamendo (www.jamendo.com). O Jamendo Pro (www.jamendo.pro) organiza oferta e demanda de artistas, produtoras, rádios etc... e oferece aos dois extremas desta relação bom material, baixo custo e boa remuneração. Um sistema simples e com poucos intermediários. Uma forma muito mais interessante do artista ser remunerado por sua música do que vender CDs na FNAC.

Vamos analisar esta situação: As sociedades foram criadas para, junto àquela coisa maravilhosa chamada ECAD, concentrarem a arrecadação da vehiculação de fonogramas pelo Brasil e pelo mundo. Estas organizações atuam principalmente junto a selos e festivais de música (provavelmente porque desconhecem a Internet ainda).

Os selos ou gravadoras dos artistas independentes (99% do total de artistas do planeta terra) não tem menor condição de fazer publicidade e negociar vendas para cada um dos artistas de seu cast. Por esse motivo, o fazem muito mal ou simplesmente não o fazem.

Alguns serviços como o Jamendo ou a Last.FM têm conseguido fazer isto de forma alternativa e muito interessante. O destaque é para o jamendo que, além de remunerar bem o artista, mantém uma comunicação humanizada com os usuários quando isso faz-se necessário.

Bem... graças ao ECAD e a legislação brasileira que OBRIGA o artista a associar-se a uma destas sociedades arrecadadoras, o músico brasileiro não pode autorizar o Jamendo a comercializar sua música para sincronizá-la em um filme, ou seja lá o que for.

Moral da história: se o ECAD e as sociedades arrecadadoras não vão receber dinheiro, então ninguém mais vai.

Genial não?

Alguém tem alguma solução para isto?

Pensei numa: Se o artista não prensar capias oficiais de seu CD mas sim cópias piratas, ele permanece livre para decidir o que deve acontecer com sua obra já que não precisa estar associado a ninguem.

No sistema cultural contemporâneo, a pirataria é obrigatória!

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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Matéria no Rraurl! :: Entrevista com Felipe Julián para o DJ Felicio Marmitex

O inquieto colega, DJ, agitador cultural, produtor musical, pesquisador e garibador Felicio Marmitex gerou esta bela matéria para o site Rraurl. Veja aqui alguma pouca informação introdutória sobre esse sujeito que está despontando no underground da produção musical brasileira: http://rraurl.uol.com.br/marmitex

O Rraurl tornou-se um site referência para a produção músical principalmente dentro do universo da música eletrônica.
http://rraurl.uol.com.br/

Veja a matéria publicada na integra neste link:
http://rraurl.uol.com.br/cena/6014/

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A audiocenografia de Felipe Julián
por Felicio Marmitex
Conheça o frontman da banda paulista Axial, nome forte da música eletroacústica
Homem à frente do projeto de pop experimental Axial, Felipe Julián, é um músico e produtor free-style que não pára quieto um segundo, e a cena musical paulistana agradece. Destaque do evento Homem-Banda na Mostra SESC de Artes 2008, Felipe Julián alimenta a sua fúria musical com princípios de música eletroacústica, poesia e cultura livre virtual. No teatro do SESC Paulista em outubro último estes elementos foram jorrados na cara do público, e a dose é praticamente a mesma para quem assiste ao show do seu grupo Axial, como no TIM Festival carioca do ano passado.

Julián está sempre metido em apresentações inusitadas, acompanhando filme mudo em formato live PA, e até catarses poéticas em aparatos sonoros próprios. Mas como um bom profissional da música, ele costuma realizar trilhas para teatro e outras áreas. E vai além: envolvido na cena de arte contemporânea de São Paulo, Julián não se contenta com o trivial metiê da produção de trilhas comerciais, e encabeça a audiocenografia na cidade.

A SUBVERSÃO SERÁ MUSICADA
Desde 2005, este baixista especializado em eletroacústica ministra workshops sobre audiocenografia na rede SESC, incentivando a criação de áudio-esculturas colaborativas e trilhas voltadas às artes plásticas, instalações e web-arte. "Há muita demanda por 'trilhas-sonoras' que atuem como uma ambientação mais do que como um elemento narrativo. Estamos na era da imersão. Na era do entorno sensitivo. Nada é tão suficientemente fluido para ocupar todos os espaços ao redor do espectador como o som é. O som é tridimensional, omnidirecional e transparente. Isso é muito útil a todos os artistas plásticos, por exemplo", conta ao rraurl.

O figura, que é apaixonado pelos aspectos sensoriais do vasto universo do áudio, acredita que, por ser invisível e fluido, o som passa a ter um potencial subversivo. "Muito interessante numa sociedade baseada na exploração da imagem. Ele se infiltra. Invade. E não pode ser pego nem domado".

As oficinas, que transformaram as salas de Internet Livre dos SESCs em orquestras de auto-falantes, resultaram no interessante CD-Virtual Audiocenografia. O disco é, na verdade, um player em arquivo flash que você pode baixar livremente aqui, sob Creative Commons. Outro trabalho colaborativo de Felipe Julián foi a instalação fotográfica e sonora A Grande Linha, ao lado dos fotógrafos Edu Marin e Daniel Trench. Composta por 80 imagens de horizontes marítimos, registradas por 25 artistas e sonorizadas por 20 alto-falantes com trilha própria, a obra integrou a extensa Mostra SESC de Artes - Mundo Mediterrâneo, de 2005.

Audio-escultura // A Grande Linha
Audio-escultura      //       A Grande Linha

Com os amigos Edu Marin e Daniel Trench, Julián também já havia encabeçado outro projeto ousado, o CD-Livro Urbanogramas, realizado com apoio do Ministério da Cultura e lançado no Museu da Imagem e do Som em 2003. No livro, clicks urbanóides de seis fotógrafos convidados, além dos dois diretores. No CD, recursos binaurais de gravação para simulação de áudio tridimensional ("que podem ser melhor percebidos com fones de ouvido"). Sua trilha sonoplástica, à la Amon Tobin, ainda foi utilizada para a peça monólogo multimídia SMPNF1974, de Fernanda Barcelos.

"Eu já havia experimentado produzir música com ruídos antes, com um trio de funk com o qual eu toquei na faculdade. No caso do Urbanogramas, a minha proposta foi criar um trabalho que me servisse de pesquisa para, depois dele, produzir outros. Não é um processo muito comum sem dúvida. Se por um lado nossa relação de amizade permitiu a coerência entre as partes, por outro lado, ter feito dessa forma, garantiu a independência entre elas, pois o que estávamos produzindo não era um audiovisual. Assim, não ficamos procurando a sincronia de imagem e som, mas sim um sincronismo conceitual", revela Julián.

SENSIBILIDADE ORGÂNICA NO CONTROLE DIGITAL?
Na já mencionada mostra Homem-Banda, Julián desenvolveu um show solo que evidenciou a construção poético-musical que costuma aflorar nas entrelinhas do estúdio do Axial. O produtor extrapolou este lado com uma performance sonoro-musical baseada na constituição de um poema. Para cada palavra escrita e logo pendurada num barbante que atravessava o palco, ele criava ambiências e texturas sonoras, que no final constituíram o universo simbólico do texto construído durante a apresentação.

Usando laptops, controladores digitais, teclado, samples baixados livremente e um contrabaixo construído por ele mesmo, o caráter poético também se afirmava na gestualidade de sua escrita das palavras durante o live PA.

A plataforma de apoio dos papéis, uma prancheta com captadores de cordas amplificados para dentro do Ableton Live, emitia sons pré-programados no software, de acordo com os seus movimentos. "A Prancheta, como eu tenho chamado este instrumento, combina uma seqüência de ressonadores e delays, com gates e compressores, de forma que eu conseguia ter dois 'arpejadores' e um bumbo de bateria dependendo da forma como eu tocasse. Outras texturas também podiam ser obtidas se eu raspasse as unhas ou esfregasse os dedos. Usei muitas vezes no Axial para tocar uma música chamada "Torre das Mercês", onde havíamos gravado sons de um lápis desenhando no papel".

Homem BandaA opção por este gadget sônico rústico nasceu da necessidade de ter uma aproximação maior e mais sensível no controle digital. "O grande lance era obter uma interface que gerasse sons digitais muito mais sensível do que as interfaces controladoras MIDI. Queria obter sons diferentes da mesma forma que é possível se usando um violino tocando ponticello, tenuto, sforzando, legno etc... Isso tudo não dá pra fazer com um controlador normal", explica ele, que vive buscando formas de tornar a relação mais humana com a máquina.

Outro live para seu currículo de produção musical foi a sonorização em formato live PA do filme mudo O Grande Desfile. À convite do curador Livio Tragtenberg, trilheiro vanguardista de marca maior do país, Julián realizou o acompanhamento musical ao vivo. Na II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira, em agosto, os produtores brindaram com a clássica forma da trilha-sonora feita na era dos filmes mudos.

AXIAL
Mesmo com tantos trabalhos expostos na cena musical contemporânea de São Paulo, quando o assunto é o Axial, os olhos dele brilham. Com a cantora, pianista e sua esposa Sandra Ximenez e Leonardo Muniz Corrêa, que processa efeitos em seus instrumentos de sopro durante a improvisação, Julián incorpora a canção tradicional, combinando música instrumental e princípios da música eletrônica (eletroacústica), com pontos de candomblé e cânticos.

"Queria obter sons diferentes do digital, da mesma forma que é possível se usando um violino"
Julián, que circula no universo acadêmico como professor de Produção Musical na Anhembi Morumbi, é especialista em eletroacústica, e é dos raros exemplos de músicos que conseguem tirá-la do campo teórico, injetando a noção clássica da arte do ruído como fonte sônica na maioria dos seus trabalhos - do hit "Mediterrâneo", do Axial, às trilhas.

AXIAL - Mediterrâneo (mp3)

"O que eu sempre vou tentar fazer é distribuir o contraponto entre vários instrumentos ao invés de deixar tudo na mão do violão ou do piano. Isso soa muito jazz ou muito bossa demais pra mim. Na verdade, sou a favor do contraponto acima de tudo. Seja na harmonia ou na mixagem. Gosto dessas mixagens onde cada elemento contribui para o todo, mas ele tem vida própria e conta sua história também se você prestar atenção".

Militante da Cultura Livre, o Axial lançou dois álbuns, Axial (2004) e Senóide (2007) gratuitamente em seu site, e já teve mais de 180.000 downloads. O grupo se apresenta geralmente em salas de teatro, como no Itaú Cultural, além do já mencionado SESC. Produtores culturais, que tal um show de fim de tarde em algum parque arborizado com a cara do Axial?


"Filha da Palavra" ao vivo em São Paulo - Teatro Frei Caneca | 2007


AXIAL - Torre das Mercês (mp3)

AXIAL, POR HERMANO VIANNA
"O Axial lançou um dos discos mais belos e "transculturais" da história recente da música brasileira. Vodu do Haiti, coco da Paraíba, orikis do candomblé da Bahia e baião das princesas do Maranhão se encontram com as técnicas eletroacústicas de organização sonora e o resultado é de uma delicadeza comovente. Quem estiver precisando de uma reza diferente que vá direto escutar Torre das Mercês, ainda mais singela, pois cantada com sotaque bem paulistano."

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Sincretismo e novas midias

O sincretismo, na formação do Brasil, muito mais do que um modo de resistência e autopreservação, foi um dos alicerces com o qual a cultura brasileira se construiu. Uma cultura mestiça, uma cultura dominada e dominante. Uma cultura da coexistência e da assimilação.

Uma coexistência a força em sua origem. Uma relação de dominação entre senhores e escravos, entre brancos e índios que fracassou enquanto modelo cultural. Tendo sido submetida a figura do dominador de tal forma aos hábitos e costumes dos dominados, e com tamanho isolamento das metrópoles culturais do mundo daquela época, pouco restou a estes desarraigados senão perder-se no espaço-tempo cultural de um Brasil em plena construção.

A cada investida no sentido de civilizar negros e índios o branco assimilava mais e mais a cultura que visava suprimir. Eram os brancos, na verdade, os primeiros antropófagos.

E essa mesma nação que aprendeu a praticar e fazer uso de um certo tipo de tolerância – como no caso da capoeira – uma luta disfarçada de jogo e dança – é hoje, uma das sociedades que mais se apropria antropofagicamente das novas ferramentas de comunicação.

Optando cada vez mais por sistemas livres, democráticos e descentralizados de comunicação e difusão de idéias esta sociedade começa a encontrar alternativas midiáticas cada vez mais independentes daquele velho sistema de comunicação de massas que, ainda que as vezes público, sempre atendeu a interesses privados por definição.

A voracidade dos usuários destes novos meios de comunicação banaliza a mídia convencional e revela seu anacronismo numa sociedade que tem urgência para o debate e produção de soluções.

A circulação de idéias aumenta em velocidade e quantidade.
Cada vez menos se tolera o direito à exploração financeira destas idéias ou dos meios de intercambio das mesmas. Qualquer empecilho é visto como um anti-catalizador destes processos. Conceitos antiquados como os implícitos na propriedade intelectual passam a ser cada vez mais postos a prova. E quanto mais ampla é a aplicação destes conceitos na realidade do mundo, mais eles se revelam imperfeitos e insuficientes. Mais eles se revelam subservientes de interesses de uma minoria em detrimento de um coletivo maior.


O fato é que temos experimentado algums goles a mais de liberdade do que o que estávamos acostumados. E isso tem despertado uma sede voraz. E portanto começam a surgir os subprodutos: liberdade de mercado sendo defendida com base nos mesmos argumentos que a liberdade de expressão. Um erro perigoso visto que a imaterialidade das idéias permite-lhes o direito ao erro, a experimentação e à prova; enquanto que um mercado que se permite o errar e o experimentar é um mercado potencialmente capaz de matar e destruir ainda que não o faça intencionalmente. É um mercado que conhecemos bem.

Daí o papel fundamental da arte enquanto um laboratório de idéias e técnicas. Sim. Na arte é permitido ao ser humano errar. E cada erro da arte é tão útil a sociedade quanto um acerto. Quem sabe a função do acerto na arte não seja muito mais do que simplesmente evidenciar o que seria um erro. E sendo a arte imaterial (não enquanto suporte mas sim enquanto conceito) nos permite colocar a prova e refletir a respeito absolutamente toda e qualquer coisa que a sociedade produza ou reproduza.

Daí a fundamental importância da arte fazer uso desses novos sistemas de comunicação enquanto matéria prima ou suporte, neste momento um tanto peculiar da historia humana.

http://www.axialvirtual.com
felipejulian@axialvirtual.com

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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

ENTREVISTA – RONALDO LEMOS para revista Azougue

Coloco aqui um texto do Ronaldo Lemos publicado originalmente na excelente revista de literatura Azougue "Saque/ Dádiva" (número 11 -
janeiro/2007)da Azougue Editorial projeto editorial patrocinado pelo Programa Cultura e Pensamento em 2006, através da “Seleção Pública de Debates em Periódicos Impressos”. Está autorizado o uso desse texto para fins não comerciais, sendo sempre obrigatória a apresentação dos créditos.

Optei por adicionar este texto aqui pois ele tem profunda relação com a forma com a
qual o trabalho do AXIAL é realizado e "comercializado" bem como com as oficinas de produção musical e difusão que venho realizando em alguns SESCs do estado de Sâo Paulo.



ENTREVISTA – RONALDO LEMOS

Como surgiu a idéia de propriedade intelectual?

A propriedade intelectual tal qual a gente conhece hoje é produto do século XIX. Antes, existia uma outra manifestação em paralelo, mas nunca havia sido feita uma sistematização do que vem a ser propriedade intelectual. E é interessante notar que essa propriedade intelectual, que é sistematizada no século XIX e hoje chega até nós, é resultado daquele racionalismo novecentista. Ou seja, o mesmo racionalismo que fez a divisão do mundo em linhas de tempo, que estabeleceu pesos, medidas, etc, também fez a propriedade intelectual. São aquelas grandes convenções do final do século XIX, elaboradas de uma forma muito tecnicista, muito eurocêntrica. Quando ela surgiu, só existiam dois tipos de obras para serem reguladas: os livros e as partituras musicais. A coisa era muito focada nesses dois tipos de proteção. E o que acontece é que, ao longo do século XX, os tratados são ampliados, criam-se novas áreas de proteção dentro da área de propriedade intelectual, mas mantendo aquela matriz original: a idéia européia do autor enquanto indivíduo, a incompatibilidade da propriedade intelectual em relação ao autor coletivo. Daí as dificuldades, por exemplo, de a propriedade intelectual lidar com o conhecimento tradicional. Essa herança do século XIX está presente até agora. O mais interessante é que a matriz jurídica permaneceu, mas a sociedade se transformou brutalmente nesse período. Especialmente a partir da década de 1990 até agora, você tem uma transformação, visível na idéia de cultura digital, que põe em xeque tudo aquilo que foi feito. Tratase então de um modelo a ser repensado.

Você falou sobre direito autoral e sobre criação coletiva ou tradicional, sobre manifestações culturais que não são estanques, como o livro ou o disco, mas estão em constante reinvenção. Você escreveu um importante artigo com o Hermano Vianna sobre isso. Qual seria uma alternativa para esse problema?

No texto que eu escrevi com o Hermano, a gente discute sobre o fato de a própria idéia de propriedade ser alheia a várias comunidades tradicionais. É uma idéia estrangeira a elas. Esse é o problema número um. O segundo problema é que existe hoje em curso uma negociação no sistema global, feita pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual em Genebra, para descobrir um modo de se proteger os conhecimentos tradicionais. Essa é a grande questão que surge quando o sistema da propriedade intelectual é aplicado a eles. Imagine por exemplo a introdução do conceito de copyright, ou de direito autoral, para uma nação tradicional. A questão que isso coloca é que a visão que se tem nessa discussão é sempre a visão do homem branco, europeu, chegando no o povo tradicional, extraindo aquele conhecimento, voltando para o seu país de origem, explorando aquele conhecimento. O caso arquetípico é o das Ilhas Salomão, em que um canto tradicional foi sampleado por um grupo de música eletrônica chamado Deep Forest e virou um sucesso imenso na Europa. Jamais aquilo foi compensado, a Ilha Salomão não recebeu nenhum centavo. Não se trata de entrar em detalhes do caso específico, de quem está certo ou errado, não é isso que eu quero focar aqui. O importante é que essa visão é uma visão eurocêntrica, porque ela ignora que as trocas entre conhecimentos tradicionais muitas vezes acontece entre os próprios povos tradicionais, e mais, entre os povos tradicionais e os países desenvolvidos. Há trocas nesse sentido, e muitas vezes essas trocas são ainda mais importantes do que a “exploração” do conhecimento tradicional pelo homem branco europeu. Então, se vai ser criado um regime de propriedade, como é que esse regime vai se aplicar, por exemplo, nas trocas entre os próprios povos tradicionais?

Você cria uma mediação que não existia.

Exatamente. Uma mediação que não existia antes. E aí entram questões muito difíceiscomo, por exemplo, o Hip Hop da Tanzânia. Os Maasai absorveram a tradição do Hip Hop nova-iorquino e criaram uma escola de Hip Hop maasai. E aí? Será que eles estão absorvendo um conhecimento tradicional e vão precisar pedir autorização? Se é para levar essa questão a sério, você tem que considerar não apenas essa visão implificada do homem branco indo buscar conhecimento tradicional em uma comunidade tradicional, mas também as trocas entre as próprias comunidades tradicionais e a absorção do conhecimento dessas comunidades por parte dos povos desenvolvidos. Como é que se faz isso?

Há um descompasso curioso nisso. Enquanto essas comunidades
tradicionais começam a absorver a idéia de copyright, os países
desenvolvidos estão partindo para o copyleft...


O mais difícil disto tudo é a introdução da expectativa de ganho econômico com base nesse conhecimento. Hoje a Sony BMG não consegue mais ganhar dinheiro com copyright. Então, como um povo tradicional vai ganhar dinheiro com copyright? Quando você introduz essa expectativa, as pessoas começam a acreditar que vai ser uma fonte de sustento. E começam a introduzir um elemento de divergência que muitas vezes não chega a se concretizar. E mais: quando se concretiza, como é que se distribui? É um elemento que pode ter um caráter deletério dentro daquela comunidade. Eu fico muito preocupado quando eu vejo essa expectativa de retorno financeiro para o conhecimento tradicional, especialmente porque mesmo as grandes indústrias fundadas no copyright, como Hollywood e a indústria fonográfica, estão com problemas para ganhar dinheiro baseado nisso.

Existe uma crise generalizada nas mídias tradicionais. Qual o papel da
cultura digital nisso, ao trazer a possibilidade de uma informação imediata?
Como você vê esse processo? O que você vê de positivo e negativo nisso?


Essa crise estrutural das mídias tradicionais é extremamente complexa. São vários fatores, desde a concorrência com outras mídias, até a mudança de hábito do consumidor como um todo. Além disso, com relação à emergência dessa ausência de intermediários, que é real, o que está acontecendo é o seguinte: surgiu um novo competidor para a indústria cultural. Esse competidor é a própria sociedade. Hoje, Hollywood tem que competir com o garoto que está em casa. A Rede Globo tem que competir também com esse mesmo garoto que está em casa, fazendo novelinha e colocando no YouTube. E um milhão de pessoas assiste a essa novelinha. Isso é um dado muito novo, é algo muito recente, e que realiza uma transferência de poder. Este poder sai do produtor de conteúdo, que se torna descentralizado, e passa para o agregador. Por exemplo, qual é o grande ativo financeiro do YouTube? O fato de ele ser acessado e ter se tornado um ponto de convergência. A tecnologia do YouTube é, em certa medida, trivial. Existem hoje vários programas similares ao YouTube, até no Brasil. O Vídeolog é o YouTube brasileiro. O importante é ser escolhido como o agregador dos conteúdos, e não necessariamente produzi-los.Agora, a grande questão que o agregador põe ao entrar como foco central dessa nova sociedade descentralizada é saber com que regras ele vai jogar. Aí você tem desde modelos muito fechados como, por exemplo, as iniciativas de jornalismo participativo no Brasil, que são muito peculiares. Não vou citar nomes , mas quando se contribui como jornalista cidadão para algumas empresas, você tem que aceitar um contrato que diz o seguinte: “Tudo que você escrever no meu site me pertence”. Então, eu vou lá, contribuo, faço todo o trabalho e ainda cedo todos os meus direitos. Essa é uma regra possível, e utilizada, mas será que é um jeito razoável de jogar? Outra possibilidade, que me parece mais interessante, seria: você contribui, mas a sua contribuição é através de um canal. Os direitos ficam com você e você autoriza, por exemplo, pelo Creative Commons, a sociedade a ter acesso àquele conteúdo. As regras do jogo envolvidas na maneira como vai funcionar esse processo de agregação, é que determinarão a maneira pela qual o poder vai efetivamente se distribuir.
A princípio, nesta cultura digital imediata o papel da crítica ou do editor é substituído por outro instrumento de valoração do bem cultural, que é a quantidade de acessos ou de links ao produto. Não há um risco de haver um afrouxamento dos instrumentos de valoração dos bens culturais e o diálogo crítico neste processo?

É incorreto pensar que você perde o sistema de valoração. Pelo contrário, esses sistemas, na verdade, acabam sendo reinventados. No Overmundo, a solução que encontramos foi entregar a edição para a própria comunidade. Então, é a comunidade quem decide, em primeiro lugar, o que vai ser publicado. Se uma determinada matéria no Overmundo não atinge um número determinado de votos, ela não é publicada no site. Do que consegue ser publicado, é a comunidade que decide o que vai ter destaque. Você
descentraliza esse sistema de valoração. Isso é um caso muito particular.No geral, as pessoas também estão reinventando os seus próprios sistemas de valoração. Isso é uma das coisas mais extraordinárias. Estou cada vez mais fascinado pela possibilidade do uso do sistema de tags para referências conteúdo. O sistema de tag é o primeiro embrião do que poderia ser chamado de WEB 3.0. Hoje todo mundo está falando na web 2.0, que é essa WEB colaborativa, feita pelo próprio usuário. Está surgindo uma que se chama web semântica. E essa é mais uma vez a idéia do colaborador. É uma idéia muito sofisticada. Imagine que, além dos conteúdos, você tem um metasistema de eferenciamento que informa em detalhes o que é aquele conteúdo. E esse sistema, por sua vez, é feito também a partir da inteligência coletiva. Hoje, aquele sistema de estrelinha do YouTube, ou o número de clics e tal, ainda é muito rudimentar. O potencial de expansão para esse meta-sistema de classificação é gigantesco. Um exemplo para você entender o que ele pode fazer: dentro do Creative Commons hoje, existe uma área que é o Science Commons. Um dos princípios do Science Commons é promover essa web semântica, que faria por sua vez essa meta-referenciação de conteúdo. Teríamos papers científicos nos quaiso sistema de citações não é aquele da bibliografiafinal, mas um que permite identificar as idéias discutidas e a ligação dos papers entre si a partir daquelas idéias. Quando um cientista vai pesquisar uma determinada molécula, ele não precisaria partir do zero, levantando toda a bibliografia, mas utilizaria um metareferenciamento que lhe daria tudo que já foi descoberto até aquele momento. Isso hoje está sendo construído. A primeira medida importante, aliás, é a seguinte: parar de publicar texto on-line em pdf. Quando você publica o texto em pdf, está reproduzindo o modelo anterior. Está criando um objeto fechado que não consegue se hiper-referenciar.
É um modelo de lista, certo?

Exatamente. Você está reproduzindo o modelo livro, on-line. Como é que isso se liga com a questão da cultura? Está surgindo um fenômeno chamado de “mega nichos”. Uma contradição, um nicho que é mega. Um exemplo no Brasil, a que eu e o Hermano Vianna estamos prestando muita atenção agora, é o dos animes japoneses. Hoje, os apreciadores de anime japonês são uma comunidade extremamente consciente do uso da internet, que se organiza de uma forma inacreditável. Por exemplo, os animes não são traduzidos para o português. Existem comunidades que criam legendas de animes formadas por moleques de doze a vinte e quatro anos, e que trabalham com uma eficiência absoluta. As comunidades de anime já têm os seus sistemas para, por exemplo, descobrir dentro do YouTube o que é que interessa em termos de anime. Eles já sabem exatamente quais são as palavras-chaves que a comunidade estabeleceu e como é que você encontra, extrai do YouTube aquilo que interessa. Isso que está acontecendo na anime, vai acontecer em vários outros nichos também.

Aquele modelo de exposição individual e atomizada da internet, que já era,
como no caso do Orkut, uma quebra no nosso conceito de privacidade, está sendo substituído por outro, que articula essa exposição num sistema interativo baseado na inteligência coletiva?

Correto. Isso já está começando a acontecer, e em áreas insuspeitas. Um exemplo é aquele seriado Lost, um fenômeno nos Estados Unidos e no Brasil. O seriado é exibido nos Estados Unidos nas quartas-feiras às sete horas da noite. Toda quarta-feira, às onze horas da noite, o seriado já está disponível no Brasil, através da internet, legendado, porque uma certa comunidade de fãs se organizou em rede, em que eles dividem o trabalho de tradução e legendagem otimizando aquele trabalho, de forma quase imediata. Isso é um exemplo pequeno, mas que denota uma possibilidade de organização para manusear conteúdos a que assistimos apenas a infância. Isso é o começo. As comunidades que se agregam em torno disso são gigantescas.

Qual é a qualidade da expressão que está sendo colocada? Perdemos a mediação e a triagem e isso cria um horizonte de democratização, ou de descentralização, se você preferir. Por outro lado, a qualidade da expressão e a qualidade da subjetividade a ela atrelada passam por uma remodelagem ainda incógnita, certo?

Olha, a questão da qualidade está se tornando reflexiva também. Qual é o parâmetro de qualidade? A grande questão é que quando há essa formação de nichos fluidos, a qualidade é determinada pelos próprios nichos. E a coisa mais interessante, se você acha que aquilo não é legal, é só não ter contato com aquilo. Por exemplo, quem não gosta de anime não sabe nem que isso existe, mesmo que os eventos de anime em São Paulo reúnam cinqüenta, cem mil pessoas, atraindo mais gente que muitos festivais de música. E isso é uma coisa que ainda não foi percebida. As pessoas ainda vêem isso como
sub-cultura, como sub-nicho. Então, a qualidade é totalmente reflexiva.

Não há o risco de criação de uma sociedade inteiramente segmentada, com
ausência de diálogo?


Essa é uma das grandes preocupações que, embora não seja nova, está se tornando cada vez mais urgente. Jeremy Rifkin escreveu sobre isso, dizendo que o grande desafio daqui para frente vai ser o de restabelecer um canal para a ação comunicativa comum, e que a ação comunicativa vai se perder, porque cada um vai se dividir em esferas de valores que não se comunicam umas com as outras. Então, como achar um denominador comum, que coloque essas esferas para conversar? Eu sou pessimista em vários assuntos. Com relação à propriedade intelectual, acho que o direito vai se radicalizar, e tudo isso que está surgindo agora vai ser abortado juridicamente, ou
atrasado substancialmente por vinte, trinta anos. Mas nessa questão eu sou otimista, acredito que as pessoas vão acabar reinventando um modo de esfera pública coletiva, e que essa esfera pública não só vai ser reinventada como vai ser fortalecida.

Quando toda essa cultura digital apareceu, era dito que ela traria junto uma revolução estética. Mas, até agora, estamos falando de uma revolução nas formas de distribuição de informação, mas não nas formas básicas da informação.

Essa pergunta é fascinante. Existe uma tradução de formas anteriores para o meio digital, mas até agora não foi criada, ao menos não conheço, uma estética nova a partir das suas potencialidades. Agora, existem fenômenos realmente fascinantes, e esses sim novos. A estética da periferia, por exemplo, omo no caso da emergência do cinema nigeriano. Não sei se vocês estão familiarizados com o que acontece na Nigéria. A Nigéria hoje é o país que mais lança filmes no mundo. O Brasil lança cinqüenta, cem filmes por ano. Os Estados Unidos lançam seiscentos. A Índia lança novecentos. A Nigéria lança mil e duzentos. São dados da Cahiers du Cinema. Pense no
seguinte: há uma revolução estética na Nigéria que eu chamaria de “altermundialista”. Ela não tem nada a ver com Hollywood. O cinema nigeriano é um cinemafeito direto em DVD. Na Nigéria não tem sala de cinema, não tem Multiplex, não tem nada disso. Os filmes custam três dólares para comprar, ou cinqüenta centavos de dólar para alugar, e são vendidos na rua por camelôs. O mercado de cinema nigeriano é um mercado multimilionário, é o terceiro mercado em receita do mundo. Ele só está atrás
dos Estados Unidos e da Índia. O cinema nigeriano gera um milhão de empregos. É a segunda fonte de emprego na Nigéria, depois da agricultura, mais forte que o petróleo. Esses dados são da The Economist. Se você for assistir aos filmes nigerianos, a sua reação inicial é de choque. Choque pela estética. Tem filme mal produzido, tem filme que é mal filmado, tem filme que a qualidade da imagem é muito ruim.É claro que não há uma renovação estética real nestes filmes, não há nada de inédito. Mas o conteúdo até político dessa emergência da estética da periferia, ganhando inclusive dinheiro com ela, eu acho extremamente interessante. E mais, eu disse que tem filme mal feito, tem filme mal produzido etc, mas tem filme feito também em HDTV, em high definition. Os caras já estão usando uma tecnologia que
Hollywood está apenas experimentando. Fizemos um seminário aqui na FGV, e trouxemos um pessoal da Nigéria. O que eles dizem é inacreditável. Eles sabem exatamente o que estão fazendo, têm idéia perfeita do contexto da globalização. Eles dizem coisas do tipo: “Hollywood está perdida porque usa uma tecnologia obsoleta, que é o celulóide. Nós já usamos vídeo de alta definição. Então nós já estamos preparados para um outro cinema que vai surgir a partir de agora”. A tela do futuro é uma tela pequena. A maioria das pessoas assiste aos filmes numa tela pequena. Não interessa então se você
filma em celulóide ou com celular. A qualidade da imagem se torna imperceptível, vai parecer sempre que está bem filmado. Além disso, eles estão conscientes da força de conquista de mercado do cinema deles. Já estão exportando para outros países da África, como Burkina Faso e Gana, mas o projeto deles é conseguir entrar no mercado afro-americano dos próprios Estados Unidos, que é um público esteticamente desconectado de Hollywood. A população afro-americana nos Estados Unidos – são dados
que eles me deram, nunca chequei – corresponde a apenas 4% das receitas de Hollywood nos Estados Unidos. É um mercado que não se vê representado, que não se vê esteticamente ligado a Hollywood.

Esta produção traz uma real diversidade e descentralização ou é apenas uma substituição do broadcast tradicional por outros?


É preciso ter cuidado, porque o Broadcast tradicional não vai cair do dia para a noite. Haverá muita resistência.As reações a que estamos assistindo, como no caso das negociações em Genebra, mostram uma briga muito grande. Virá uma reação jurídica cada vez maior para acabar com essa brincadeira. Essa descentralização da cultura não interessa a muita gente, e é gente forte. Agora, em relação à pluralidade, acho que estamos caminhando para uma concretização do ideal moderno. O pós-modernismo é um fenômeno muitas vezes conservador, que nega alguns dos melhores ideais modernos. E estamos voltando a eles. A estética que vai se construir, o que está se consolidando é a possibilidade não de ter uma única estética, mas várias. E
não só isso, não se tratam de várias estéticas estanques. Acho que a grande possibilidade é a confluência dessas esferas modernas racionalizadas, a possibilidade de a política, a economia, a cultura e a ciência começarem a dialogar umas com as outras. O Orkut, por exemplo, que foi criado com base numa diversão doméstica, privada, acabou construindo uma esfera política, que mostrou sua força nas últimas eleições. Haverá então um crescente curto-circuito entre política e cultura. Se eu fosse pós-moderno eu veria uma pluralidade de estéticas e pensaria que a sociedade está fadada à fragmentação. Mas acredito que não se trata de uma fragmentação estética estanque. A estética vai se misturar cada vez mais com a política, que vai se misturar cada vez mais com a ciência. Tome o fenômeno da ciência amadora. Desde 2004, estamos vivendo um apogeu da ciência amadora. Isso é um negócio inacreditável. Não sei se vocês acompanham isso, mas a General Motors abriu um site em que qualquer pessoa no mundo pode ajudar a resolver alguns problemas, e pessoas que nem são cientistas vão lá e resolvem, por exemplo, a questão da densidade de um certo emulsificante que é usado num processo industrial. Eu acho isso uma das coisas mais
interessantes para se concretizar o ideal moderno.

Isso não é uma chance do mundo da vida invadir o mundo sistêmico, como
dizia Habermas?


Exatamente. Se você considera a colonização do mundo da vida pelo mundo sistêmico, dosimperativos deslinguistizados, para usar o jargão habermasiano pesado ocorre uma redução do espaço da ação comunicativa, ou seja, você não tem mais um discurso efetivo racional transformador, mas apenas discursos matizados por uma função finalista. Mas ssa é a grande chance de reconquistar o espaço da ação comunicativa, é a nossa grande oportunidade de a ação comunicativa recolonizar o mundo da vida.

E se o poder fizer a jogada contrária e recolonizar o mundo pela ação
comunicativa?


Por isso que nós estamos vivendo tempos extremamente interessantes, porque o que está em jogo agora é exatamente isso. O sistema é necessário, ele nunca vai acabar porque é ele que garante a nossa sobrevivência material. sSe você não tiver um sistema mundo organizado, você não consegue fazer com que bilhões de pessoas consigam comer. Então, em certa medida, o papel do imperativo deslinguistizado vai estar sempre lá, e vai estar sempre importante. O problema é você entender a idéia de razão como uma idéia que se aplica não só para o sistema, mas que deve se aplicar também para a política, para os valores, para a estética. Da mesma forma que a gente conseguiu esse feito heróico de construir um sistema econômico que seja racionalizado e poderoso, não podemos desistir da idéia, não de criar um sistema (porque o sistema não se aplica para a arte), mas de enxergar que essa capacidade inerente à humanidade, de agir esteticamente, politicamente, comunitariamente e valorativamente, não é menor do que a capacidade de agir economicamente. Trata-se de agir nessas outras esferas com a mesma capacidade que você age economicamente, porque hoje nós conseguimos resolver um problema da razão, que é como agir de forma econômica da melhor forma possível. Mas política, economia, estética, valores, estão relegados a segundo plano, e colonizados pelo agir econômico. O grande desafio é reconquistar esses outros espaços e elevar
esses outros espaços ao mesmo patamar da economia.

Outro dia estava lendo um texto do Camelo, dos Los Hermanos, e ele vinha
com aquela ladainha de que a cultura digital está acabando com os veículos que atravancam a disseminação da arte. Pensei que não era bem assim, que não estão sendo extinguindos os veículos de disseminação de arte. Sendo isso impossível hoje, o que está ocorrendo é uma unificação num único veículo, o digital. Uma convergência. Não existe o risco disso virar contra? Quer dizer, se o veículo é um só, se ele for interrompido ou dominado por poucos, estamos com problemas...


O grande ponto de McLuhan é o seguinte: cada mídia tem a sua linguagem. Falar ao telefone, por exemplo, leva a agir de determinada forma, porque a mídia telefônica tem uma linguagem. Transmitir sinal pela televisão leva a padronizar o conteúdo, a dividir por programas, em uma linguagem ligada àquele meio. O meu ponto com a internet, e que responde a essa inquietação, é o seguinte: a internet é um meio que não tem uma única linguagem. Ela tem infinitas linguagens. A linguagem do telefone está na Internet. Quando você fala pelo Skype, aquilo é um telefone. A linguagem da televisão está na internet também. É o YouTube, é o streaming. A grande coisa dessa convergência é que a mídia se torna plástica, ela é moldável. A possibilidade do digital é a de moldar múltiplas mídias. Você tem todas as mídias já criadas até hoje dentro da internet. E você pode construir outras. Essa é a grande conquista.

Mas se a Internet perder sua independência, não se tornará difícil a resistência por idéias e estéticas outras?

Esse perigo existe e é gravíssimo, porque o grande risco que a Internet sofre hoje é o do engessamento. É de se congelar o estado de evolução da Internet no momento em que ele se encontra. Esse debate é chamado de a questão da neutralidade da rede, net neutrality. O que significa net neutrality? Alguns serviços de provedores de internet querem que ela se congele agora, e que se transforme pura e simplesmente em ummecanismo de reprodução do modelo de broadcast. Quem for grande e tiver distribuindo muita informação vai ter que pagar mais caro pelo uso. Quando isso acontece, você elimina a possibilidade do usuário que é pequeno e não tem dinheiro de falar com muita gente. Só vai poder falar com muita gente pela internet quem tiver
dinheiro. Essa é a discussão sobre a net neutrality. Como isso se conecta com a sua questão? Da seguinte maneira: enquanto a Iinternet for neutra, e por neutra eu quero dizer burra; enquanto a inteligência estiver apenas nas pontas e não no meio, você tem uma internet aberta para se desenvolver de forma ilimitada. Vou dar um exemplo disso. O telefone é uma tecnologia cuja inteligência só está nas pontas. Não existe inteligência no circuito. O circuito passa o que você quiser. A inteligência só está nos aparelhos que recebem. Por causa disso, houve uma evolução gigantesca dos aparelhos que poderiam ser usados nas pontas e das mídias que iam surgindo a partir deles. Do telefone passou-se ao fax, do fax passou-se à conexão dial up, a conexão
dial up virou DCL. O fato de quela rede ser neutra propiciou o surgimento de evoluções. A questão da neutralidade da rede é a seguinte: enquanto se mantiver a internet neutra, não é possível prever o tipo de evolução. A evolução é ilimitada. Na medida em que eu acabar com essa neutralidade e transformar a rede num sistema monocórdio, que só opera por uma única tecnologia, aí estaremosperdidos. Nesse ponto, eu acho que a sua preocupação é muito problemática, porque o blog individual não consegue falar com muita gente e se ele não consegue falar com muita gente na internet, significa que ele não consegue falar com ninguém. Na internet, ou você fala com muita gente ou você não fala com ninguém. Porque você não sabe quem é o seu público. O requisito de poder falar com todo mundo é fundamental para você achar seu público. Senão, acaba com o nicho, acaba com tudo. Se a questão da net neutrality vier a ser regulamentada nos Estados Unidos, como hoje há uma briga política imensa para que ela aconteça, aí sima internet se congela do jeito que está hoje, sobrando espaço apenas para os grandes e para os grandes que estão estabelecidos. Aí você tem o pior dos mundos. Você perde toda aquela coisa originária do século XX, que ainda trazia algo da contracultura dissolvida, e a possibilidade dela renascer nesses novos meios abortada.
Até porque é muito difícil voltar atrás para as ntigas mídias.

Impossível. Você perde toda aquela coisa originária do século XX, que ainda trazia algo da contracultura dissolvida, e a possibilidade dela renascer nesses novos meios abortada. Aí é o pior dos mundos.
E quais são as alternativas possíveis para isso?

Uma pessoa extraordinária aqui no Brasil é o Silvio Meira, do CESAR, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife. O Silvio tem defendido uma proposta que eu acho fabulosa, e talvez essa discussão passe por isso. Ele acha que toda cidade tem que construir a sua rede de comunicação própria, pública, para realmente descentralizar.Assim como há um sistema de água, deve ser construído um sistema de informação próprio e público. Canaliza-se fibra ótica em todas as cidades, aquilo é um patrimônio público, ninguém nunca vai mexer. Pode construir a rede que você quiser, mas aquela cidade tem uma rede de fibra ótica própria. E aí as cidades se interconectam entre si. . Isso é fundamental, pois a net hoje é privada.

E centralizada. Ela pode ser quebrada. O que eu fico pensando é que, em ultimo caso, pode-se desligá-la.

Exatamente. Não só é possível desligá-la, como existe também uma entidade nos Estados Unidos chamada ICAN ()que controla o registro geral da Internet, os nomes de domínio. Quando se digita um endereço de internet, o que permite que um computador no Japão ou no Brasil acesse esse endereço é o sistema de endereçamento mantido pela ICAN. E a ICAN é uma entidade norte-americana, constituída sob as leis da Califórnia e regida por um memorando de entendimento com o Departamento de Comércio dos Estados
Unidos, que tem o poder de cassação dos direitos da ICAN.
Ou seja, o Departamento de Comércio dos Estados nidos tem um poder invisível.

Total. Quando começou a guerra do Iraque, a ICAN desligou o Iraque. Esse é o absurdo. Hoje, o Brasil lidera uma iniciativa na América Latina de descentralização da internet, de trazer os chamados servidores-raiz para a América Latina... Hoje há servidores-raiz, se eu não me engano, em apenas oito lugares do mundo. É o servidor raiz que controla a Internet. É como se fosse o switch da Telefônica. Ele que controla o endereçamento. O Brasil está na ponta de uma proposta de autonomia da América Latina no gerenciamento da internet regional. Assim, estaríamos fora do domínio do ICAN. Mas isso não vai acontecer. Já saiu um comunicado na semana passada, publicado no site da ICAN, dizendo o seguinte: querem ser autônomos? Vão ter que ser autônomos de acordo com as minhas regras”. Editaram um comunicado que diz assim: “regras para concessão de autonomia regional”. Um total paradoxo. Isso foi feito a semana passada. Essa batalha está em curso, e é brutal. E essa não é uma batalha que está na esfera pública.

Como é que você vê o Creative Commons no Brasil hoje?

O Creative Commons hoje são duas coisas distintas. De um lado, tornou-se jargão e está sendo usado do blogueiro ao produtor de música independente. Até a Agência Brasil, que é a agência governamental de notícias, licenciou tudo em Creative Commons, o que eu acho excelente. Ao mesmo tempo, começa a haver uma reação ao Creative Commons. Eu ia dar palestras sobre o Creative Commons há três, quatro anos atrás, e especialmente os advogados mais tradicionalistas não sabiam nada dessa discussão. Eu terminava de falar e eles me chamavam de jovem, inconseqüente e comunista, assim na minha cara, e usando essas palavras. É curioso notar que, hoje, algumas dessas pessoas que me chamavam de jovem, inconseqüente e comunista, usam o meu livro ou o material didático que a gente produz aqui na FGV para dar aulas. Quer dizer, não dá mais para ignorar. E não só não dá mais para ignorar como há gente que não quer que o autor possa dizer para a sociedade, sem intermediários, que a sociedade pode ter acesso à obra dele. A grande força do Creative Commons é o fato de
ele ser voluntário. Só usa o Creative Commons quem quiser. Vivemos hoje um momento que afeta não apenas o Creative Commons, mas a emergência de todas essas mídias colaborativas. Trata-se do momento em que isso está adquirindo uma conotação política, pode-se discutir o tipo de sociedade que queremos construir. Uma sociedade plural ou uma sociedade monocrática? Uma sociedade em que o indivíduo tem poder de falar para muitos, ou só tem poder para falar para determinadas instituições onstituídas? O Creative Commons acaba entrando nessa grande discussão, acaba articipando e sofrendo como tudo mais está sofrendo na construção dessa mídia colaborativa.

Mas num país onde a inclusão digital ainda é pífia, você acha que ele está tendo que papel?

Esse é outro debate importante. Eu sou contra o “etapismo”, a idéia de que primeiro precisamos promover a inclusão digital para depois pensar em Creative Commons. Se a gente for pensar assim, a gente já perdeu, porque aí, quando tiver inclusão digital, já não existe mais possibilidade de Creative Commons, já foi para o buraco, vai estar tudo dominado. Precisamos das duas coisas ao mesmo tempo. É preciso garantir o acesso ao conhecimento, o acesso à cultura, ao mesmo tempo em que se garante o acesso à internet, o acesso aos meios físicos. Se a gente for pensar em fases, perdeu. Perdemos. Essa é a grande idéia.



Esse texto foi publicado originalmente na Revista Azougue "Saque/ Dádiva" (número 11 -
janeiro/2007), projeto editorial patrocinado pelo Programa Cultura e Pensamento em 2006, através da “Seleção Pública de Debates em Periódicos Impressos”. Está utorizado o uso desse texto para fins não comerciais, sendo sempre obrigatória a apresentação dos créditos.

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Produção e Difusão Musical na Internet - SESC Pompéia

Começa no dia 18 de outubro uma série de encontros com Felipe Julián na Internet Livre do SESC Pompéia para discutir os novos modelos de Produção e Difusão Musical na Internet.

Estas oficinas fazem parte do projeto Música Livre que inclúi shows e workshops com os músicos dos grupos que se apresentarão.

Particularmente nestes encontros de produção e difusão, serão discutidos os novos recursos que permitem aos artistas de hoje, produzir e promover seu trabalho de forma independente. São serviços quase sempre colaborativos onde a união faz a força, que pontencializam a comunicação artista / público.
Também são serviços de auditoria de trafego ou de anuncios dirigidos que permitem ao artista independente conhecer de fato seu público alvo e conversar com ele sem intermediários. E muito mais.

Mas de que serve tudo isso pra quem ainda não conseguiu produzir seu trabalho artistico?

Aí é que entram os softwares livres e as ferramentas colaborativas de produção como o NGO In A Box que estamos disponibilizando neste site para download gratuito. Mas isto é só uma amostra humilde do que há na Internet para a produção audiovisual. São inúmeros os sites que congregam artistas e produtores fornecendo e produzindo ferramentas como softwares, manuais, textos, pesquisas, foruns, bancos de sons e bancos de imagens, etc... tudo voltado à produção cultural em seu sentido mais amplo.

Durante estes encontros na Sala de Internet Livre do SESC Pompéia faremos uma breve, porém extensa introdução para o futuro da produção e da difusão cultural. E, com isto, esperamos despertar o espírito crítico dos participantes frente a aquela mídia monopolizada e anacrônica que conhecemos desde muitos anos e que, ainda hoje, é dominante.


Aos participantes (e a quem mais quiser participar) pedimos que adicionem um comentário a este post dizendo quem são, o que fazem, o que pensam e onde é possível encontrar seu trabalho dentro da Internet...

Boa sorte a todos!!!!

www.axialvirtual.com/ngo

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Domingo, 26 de Agosto de 2007

PALAVRA, TERRA DE SONHO, por Luciano Pessoa

(LP/jul.2007)
Eu devia ter uns 8 ou 9 anos, o diretor da escola entrou na sala e, de um lado a outro, levando aquela cabeça de ovo e bigode fininho, do alto das suas pernas cinzas compridas de terno, perguntou se seríamos capazes de escrever uma redação por dia, 30 linhas, 365 dias do ano.
Silêncio. Depois virou rotina, escrevia sobre qualquer coisa, se eu fosse uma parede, se eu fosse um prato fundo e outros temas de importância.
Quando a criança começa a falar, quando a fala começa a brincar, que tipo de som vem dali? Pessoa, persona, soar através (da máscara). No princípio, o Verbo.
Palavra peneira, veste as coisas e as conhece por nós.
Confúcio, via Sonia Hirsch, já dizia que a harmonia dos mundos depende da retificação dos nomes. De fato, como nos sonhos, as palavras não nos visitam por acaso. Fio de Ariadne, caminho de migalhas, contam nossa história ainda que sejamos apenas a garrafa. Meus pais, minhas mães, de onde vem o que pensamos, o que sentimos?
A olho nu, como se diz, será possível?
Então somos palavra, pé palavra, mão palavra, olho palavra, como palavra. Umas poucas e cá estamos, de volta ao mundo, diante do caos.
Na canção, história cantada, contada, a palavra dança, voa, se perde, volta com duas amigas e um cachorro magro. No design, raiz latina que agora dizemos em inglês, os vidros e a máscara da cidade. Projeto espacial, colher de plástico, mas o clima, quem vai arrumar? Palavra chove? Onde está palavra? E o nome da nossa miséria?
A palavra se mistura tanto a tudo que é difícil dizer onde não está. E mesmo aí está chegando.
Lembro do Kaspar Hauser (o filme), do poeta de Mindwalk (o filme), de Gregory Bateson (o biólogo), de Joseph Campbell (o mitólogo). A vida sabe a si mesma, a consciência está em toda parte, metáfora de metáfora....
Esses dias a Teca Brito me apresentou aos 'memes', 'memética'. Neurociências, unidades vivas de informação à solta, idéia-vírus... lembrei do William Burroughs na canção da Laurie Anderson..... e fiquei escutando a pergunta....
- Consciência nasce?


Olha mais:
Laurie Anderson - http://www.youtube.com/watch?v=4FeyGTmw0I0
Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%A9tica

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2007

Os muitos interesses de Luciano Pessoa

Há muitos anos já sabia que existia um artista visual chamado Luciano Pessoa por meio de amigos que falavam e mostravam suas capas de CD muito boas. Mais recentemente nos conhecemos pessoalmente via o som do Axial. E o Luciano sempre dá de presente uns comentários muito preciosos sobre o som, se mostrando também músico. Entrando no seu blog OITORRINO dá pra ver que é uma dessas pessoas de cabeça aberta e múltipla, conectando interesses no melhor estilo.

http://oitorrino.blogspot.com

www.lgpessoa.com

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Depoimento Fábio Barros, Grupo Grão

muitas vezes, o material literário é utilizado indiretamente para compor uma canção, ou mesmo uma melodia. Uma idéia, uma imagem literária podem "engravidar" o compositor e gerar novas obras, sendo que o sentimento expresso na obra literária permanece na obra musical mesmo que aparentemente o assunto da letra seja outro. A literatura inspira, as artes se alimentam entre si.Agora exemplificando um pouco, algumas das minhas músicas se relacionam com a literatura de diferentes maneiras, uma delas chamada "Turupá", feita em parceria com Ricardo Barros, Eu estava lendo o "Grande Sertão Veredas", do Guimarães Rosa, e me chamou a atenção a quantidade e a variedade de nomes utilizados para se referir ao diabo,( tinhoso, pé-de-pato, oque-não-se-ri, canho, o sem-nome, o pai da mentira...) e resolvi escrever uma letra utilizando aquela variedade de nomes. No caso, a canção não seria um trecho do livro musicado, mas sim, uma canção feita a partir de uma idéia apresentada, e de informações contidas no livro. Outra canção, chamada "O homem bomba", foi composta inspirada no poema "o lutador" do Drummond. O poema é um metapoema, e fala da dificuldade de escrever um poema, a canção então, seria uma metacanção, e me utilizo do assunto, comum a todos os artistas, da dificuldade de compor uma canção. Comparando o poema com a canção, a unica coisa em comum é esse sentimento, pois as palavras foram utilizadas de maneira diferente, a estrutura é diferente, a linguagem é diferente e não se nota aparentemente uma relação entre as obras. quem quiser conhecer as duas canções, pode encontrar no Lastfm, procurando por Fabio Barros e grupo Grão, disco Circo de Pulgas.obrigadoum abraço para todos!Fabio Barros
July 2, 2007 8:28 AM

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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

abordagem do material literário para compor

Minha primeira relação com uma forma artística foi com a literatura. Desde cedo leio livros que me eram presenteados, de conteúdo literário, e esses são os momentos de solidão, na infância, dos quais mais me recordo. Na adolescência a coisa continuou com a descoberta de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira... e também a descoberta da poesia. Me parece que a poesia poderia ter sido apreciada desde a infância. Tenho lido algumas coisas sobre a origem da Linguagem e muitos concordam de que a linguagem primitiva teria sido muito mais poética que em prosa. A linguagem teria surgido a partir de um ludismo com as sonoridades produzidas, de um jogo ao nomear objetos, acontecimentos e sentimentos. Nisso ela seria o mesmo que música, uma linguagem só, a do som/significado, do sopro/verbo.

Passei muitos anos sendo apenas cantora, e procurando palavras para serem cantadas. Comecei a encontrar compositores, amigos de almas irmãs, cantando suas músicas eu me sentia representando algo íntimo. E certos compositores, como o Lincoln Antonio, sempre fizeram música sobre poesia. Eu sempre tive, e ainda tenho, uma predileção por cantar essas canções.

Aos poucos comecei a ter necessidade de que o que eu cantasse fosse realmente um afloramento meu e precisei compor. Mas quando comecei a compor não me vinham palavras, vinha música. E naturalmente procurei poesia pra musicar. Comecei com uma forma poética ioruba, que são os orikis. A característica deles é já ser algo híbrido, mais primitivo como o que falei no começo, meio fala meio canto, proclamação/declamação das características de um orixá. No princípio, nas comunidades primitivas, devia ser cantofalado, como um coro grego original, música e palavra realmente sendo um só. Então é uma forma poética muito própria pra se fazer canção, ela tem esse espaço, tem isso na sua natureza.

Depois tive uma experiência oposta que foi musicar João Cabral de Melo Neto. Aí a coisa foi pura invasão mesmo, abrir a poesia e entrar dentro dela (como diria o Manoel de Barros). Porque o João Cabral dizia não gostar de música, a poesia dele é plena em si, não falta nada, não aconteceu de eu olhar e sentir que aquilo pedia música... Foi realmente uma colagem, uma agregação de linguagem que os artistas contemporâneos têm tanta facilidade e ímpeto de fazer.

Outro passo foi procurar poetas amigos, contemporâneos, pra musica. Encontrei o Sérgio Cohn, e aí não me sinto tanto invadindo a obra, apesar de ter sido o mesmo processo de abrir o livro, achar o poema, e trabalhar nele. Por ser alguém com quem isso tem troca posterior já me soa mais uma parceria.

Tem uma música que fiz com uma letra de música dada por uma amiga, Laura Ghellere, já pensada pra ser letra de música. E estou chegando, agora, a tentar fazer letra. Comecei há um tempo, muita coisa é esquecida, deixada de lado, mas algumas ficam. Nesse tipo de composição não considero que se produza literatura, mas essa linguagem híbrida mesmo, que é a canção. Às vezes se faz um poeminha para musicar e quando a música chega ela altera um pouco a poesia que foi escrita. Ás vezes chegam letra e música juntos.

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Sábado, 9 de Junho de 2007

Makely Ka - Autófago

Adiante copio um post do colega mineiro Makely Ka a respeito do lançamento de seu CD. Iniciativas como esta sem dúvida tem o nosso apoio e irmandade. Visitem o o blog Autófago.

"Este cd é apenas o suporte do seu conteúdo, que é o que realmente importa: a música. no início a música existia apenas durante o tempo de sua execução. não era palpável. a única forma de armazenamento era a memória, assim como a poesia que também era música antes da escrita. hoje cada vez mais a música é menos palpável mais uma vez. o armazenamento continua sendo a memória, mas agora ela é mais inorgânica – de silício - e cada vez mais coletiva. entre samples e bytes, a música se autoconsome e volta às suas origens. por isso este cd pode ser copiado e distribuído pelas pessoas de bem, sem qualquer restrição, desde que seja feito de forma gratuita, assim como faziam os aedos na grécia antiga e os cantadores no nordeste brasileiro algumas décadas atrás."


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Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Baixe o livro Cultura Livre de Lawrence Lessig










Em Cultura Livre, Lawrence Lessig nos convida a rever a história do direito autoral, desde sua criação até sua simples adoção de forma universal nos dias de hoje. Citando casos que variam de experimentos técnicos dentro de grandes corporações aos primeiros dias da aviação, o professor de direito na Stanford Law School mostra como as empresas multinacionais usaram de artifícios legais e tecnológicos partindo do copyright para impedir o nascimento de obras de arte que, em outras épocas, foram consideradas obras-primas ou revolucionárias. Cultura Livre foi o estudo que deu origem ao projeto Creative Commons, ONG liderada por Lessig que visa rever os conceitos de direito autoral e copyright através de um conjunto de licenças.
O livro foi lançado no Brasil durante o II Encontro de Mídia Universitária, quando a Agência de Notícias TU lançou a Licença para a Integração das Mídias Universitárias. A Licença, baseada nos preceitos do Creative Commons, permite que veículos de comunicação independentes e produtores culturais possam publicar suas obras em quaisquer TVs, rádios, revistas, jornais ou sites universitários, criando assim um ambiente de mídia universitária no país. Além de distribuído para os representantes de mídia que participaram do evento e para bibliotecas universitárias do país, o Cultura Livre também está disponível para download em PDF no link abaixo.
Para ler o arquivo, você precisa baixar o programa Acrobat Reader.

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NGO-IN-A-BOX

Estamos disponibilizando junto ao site do AXIAL o NGO-IN-A-BOX (que poderiamos traduzir para ONG NA CAIXINHA).

Trata-se de uma seleção de softwares, documentos, tutorias para produção de áudio e vídeo - tudo livre e compartilhável via Creative Commons.

Nós do AXIAL acreditamos que QUALQUER pessoa tem o direito de se expressar artisticamente ou jornalisticamente. No entanto sabemos que é muito difícil ter acesso às ferramentas de produção dado seu elevado valor, principalmente em paises do terceiro mundo. Asssim, nada mais justo e interessante que criar ferramentas novas, gratuitas, compartilháveis e democráticas para dar uma ajeitada nesse desequilíbrio. Não há sociedade que possa se constituir em plena democracia sem que os sistemas de comunicação desta sejam exemplarmente democráticos.

Assim sendo, la vai mais uma gota nesse aceano:

"The Audio and Video edition of NGO-in-a-Box is a toolkit that lowers the entry level for NGOs, non-profits and media activists wanting to use audio and video to effect change. It is a collection of Free and Open Source Software (FOSS) tools, documentation and tutorials that introduces you to the world of FOSS and the low-cost technology that is transforming the balance of forces in the realm of media production.
Traditionally audio and video production and distribution have been cost prohibitive for most people, particularly for those in transition or developing countries. New technologies are changing that. We've put together a kit that lowers the entry level for NGOs and individuals wanting to use audio and video, introduces you to the world of FOSS as well as low-cost technology and its possibilities for transforming the balance of forces in the realm of media production.
read more".

então façam uso:

www.axialvirtual.com/ngo

...e comentem por aqui.

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Domingo, 27 de Maio de 2007

cheguei

Fiz minha inscrição como usuária deste blog pra poder soltar o verbo!

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Quinta-feira, 24 de Maio de 2007

A Missão de hoje (do site OVERMUNDO)




Este texto do colega virtual Hermano Vianna fala sobre a publicação da caixa com 6 CDs contendo parte dos registros das missões de pesquisas folclóricas de Mário de Andrade. Este material, sendo objeto direto derecriações do AXIAL merece então ser posto em discussão neste nosso blog. A integra da matéria do Hermano você encontra no site OVERMUNDO




"A viagem da Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada por Mário de Andrade e realizada em 1938, é um daqueles acontecimentos centrais para a compreensão dos rumos tomados pela cultura brasileira, e pela noção de identidade brasileira, no Século XX. Mas como tantos outros desses acontecimentos, sempre foi mais citada do que conhecida. Não havia muito como conhecer: até o final de 2006, era quase impossível ter acesso a seus registros (músicas, fotografias, filmes, objetos etc.) a não ser depois de longa peregrinação para uma sala do Centro Cultural São Paulo, onde estavam guardados com muito cuidado (o que significava também - e de certa forma ainda bem! - uma dificuldade extra para conseguir autorizações para pesquisar as Pesquisas). Então tudo contribuía para que o material ficasse envolto em mitos, ou ganhasse a aura de uma preciosidade artística com a qual nunca poderíamos estabelecer contato.Eu sempre ouvia falar dos registros, mas meu único contato com eles foi através de um CD, lançado pela Biblioteca do Congresso Americano dentro do Projeto Música em Perigo (reparem no nome, que certamente ajudava a fortalecer o mito...), contendo apenas 23 faixas curtinhas. Sabia, pelo livro Acervo de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade 1935-1938, que havia mais de 1.200 fonogramas registrados nas viagens. Ficava sonhando com o o que eu não escutara, e já estava me acostumando com a idéia que nunca iria escutar... Mas para alegria geral da nação, o Centro Cultural São Paulo, a Secretaria de Cultura de São Paulo (dirigida por Carlos Augusto Calil, que felizmente havia sido diretor do CCSP e portanto tinha grande familiaridade com o material), e o SESC-SP (que felizmente é dirigido pelo Danilo Miranda) deram fim ao mistério lançando uma caixa com 6 CDs (nesse link você pode ouvir as músicas, ver fotos, ler mais textos etc.) contendo o melhor desses registros sonoros. Diante de tanta demora, saudei o lançamento como acontecimento tão importante quanto a própria realização da Missão! (E já deu no New York Times!)Então: o material precioso é agora acessível. O que devemos fazer com ele? Poderíamos manter em seu entorno a atitude reverencial que votamos aos mitos mais sagrados, descobrindo ali todas nossas mais profundas raízes de autêntico povo brasileiro. O ideário da Missão alimenta essa reverência: era como se aquilo tudo a ser registrado fosse acabar no dia seguinte (e não acabou, muitas dessas músicas continuam vivas, e algumas até mais fortes do que eram antes, como pude perceber nas viagens do Música do Brasil); era como se tudo aquilo fosse puro, sem contato com a modernidade (o que escutar as próprias músicas desmente, como vou comentar em detalhes adiante). Então minha proposta vai em sentido contrário ao da "busca de raízes": vamos acabar com o mito de uma vez por todas? Aqui não vai nenhuma sugestão de desrespeito, ou de profanação inconseqüente: na verdade penso no mais profundo respeito, que sirva para dar nova vida para o material, que já está digitalizado e pode ser "manuseado" com vigor, sem perigo de "desaparecimento" dos registros (que esse era sim um perigo real, físico). Pensei num exercício um tanto ou quanto iconoclasta, mas ao mesmo tempo e paradoxalmente devoto: queria escutar as músicas sem pensar em sua distanciadora importância histórica, ou "mitológica" - queria escutar esses CDs como se fossem quaisquer outros CDs, lançados hoje - queria investigá-los para saber o que eles têm a dizer para o mundo de hoje, esquecendo o seu lado de "peças de museu". O que resta dessas músicas, sem o mito? E o que elas iluminam na musicalidade brasileira (seja pop ou "tradicional") de hoje?É o que vou fazer aqui: uma série de comentários sobre as faixas com as quais estabeleci um diálogo, digamos assim, contemporâneo (por favor: não procure aqui rigor etnomusicológico: a intenção é completamente outra...) Que músicas me fazem dançar? Como ouvir essas músicas com ouvidos pós-tropicalistas, pós-música-eletrônica-de-pista-de-dança, pós-barulho-do-rock-and-roll? Há conexões possíveis? Veremos. O que apresento a seguir é apenas o início dos trabalhos - é uma obra aberta e inacabada. Vou continuar completando o exercício, nos comentários, toda vez que tiver algo a falar sobre uma outra música, toda vez que estabelecer links entre elas e o mundo de hoje (ou com a maneira como o mundo de hoje pensa seu passado musical/cultural brasileiro). Convido todo mundo para entrar na brincadeira. Escute os discos, faça suas próprias conexões. Pode até pegar caronas nas minhas conexões, ou desconectá-las, propondo novos links. Seria bom começar também a remixar os registros (não sei se os direitos autorais permitem...) ou a fazer logo suas novas versões (como o pessoal do Projeto Axial já faz). O objetivo: aproveitar os lançamentos dos CDs e colocar essas músicas novamente para circular. No meu entender, não poderíamos fazer nada melhor, ou ter maior respeito, por elas.Sendo assim... Vamos às músicas:"




Veja a lista e os comentários destas músicas no site Overmundo na matéria: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-missao-de-hoje




Parabens ao Hermano Vianna!






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Texto extraido do Petition Online:

Não à Lei Rouanet para "Templos Religiosos"

O Senado está a um passo de aprovar um projeto de lei, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus) que incluiria as igrejas entre as beneficiárias do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Mais conhecida como "Lei Rouanet", aprovada em 1991 pelo Congresso Nacional, o Pronac permite que empresas invistam em projetos culturais até 4% do equivalente ao Imposto de Renda devido. O projeto chegou a ser aprovado em caráter terminativo na Comissão de Educação, mas um recurso para que fosse apreciado pelo plenário impediu que seguisse para a Câmara. Uma emenda apresentada pelo senador Sibá Machado (PT-AC) obrigou a volta do texto para a comissão. Ainda precisará ser votado no plenário do Senado e depois ir à Câmara. Como o projeto original fazia referência apenas a “templos”, sem especificar sua natureza, ao estender a eles os benefícios da Lei Rouanet, o senador Sibá considerou necessário acrescentar um adendo. A emenda, que teve o parecer favorável do senador Paulo Paim (PT-RS), foi aprovada pela Comissão de Educação e deixa mais claro que o Pronac poderá ser usado para contemplar não só museus, bibliotecas, arquivos e entidades culturais, como também “templos de qualquer natureza ou credo religioso”. A proposta agora segue novamente para o plenário, onde alguns senadores prometem reagir contra a idéia. Está mais do que na hora de as pessoas envolvidas e/ou preocupadas com a verdadeira cultura em nosso País, reagirem e tomarem uma providência.

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Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

Encontros Digitais

A Cooperativa de Música realiza em junho o evento Encontros Digitais na sede em São Paulo. Durante os três primeiros sábados do referido mês os cooperados estão convidados a conhecer as possibilidades que o universo das tecnologias digitais oferece para a viabilização do trabalho do músico. O nosso Cooperado Felipe Julián, responsável pela elaboração do conteúdo das conversas, vai compartilhar a experiência pessoal nesta área. No dia 2 o tema será Difusão e Comercialização na Internet:Alternativas à falta de alternativa. Produção Musical – Hardware, software e internet serão tratados no bate-papo do dia 9. Encerrando os encontros, no dia 16, Felipe aborda Direito Autoral e Produção de riquezas na era digital.

Para se inscrever responda a este e-mail até o dia 30 de maio confirmando o dia escolhido. Os encontros são GRATUITOS e não têm limite de participação podendo o cooperado freqüentar os três dias.

“Que recursos oferece a internet de hoje para a divulgação de trabalhos, para a difusão de obras e para a comercialização de músicas?”. Felipe afirma que são inúmeros os caminhos e, na maioria das vezes, gratuitos. Segundo ele, atualmente é possível alcançar com precisão “por meio de recursos de redes colaborativas de produção e relacionamento virtual” o público-alvo para cada trabalho musical. Ele cita ferramentas como sites, blogs e rádios, alguns dos mais popularizados. No encontro do dia 2, Felipe vai falar sobre esses recursos e ainda podcasting, padrões de áudio e vídeo, inteligência coletiva, colaborativismo e Cooperativismo, entre outros.

O encontro do dia 9 vai investigar passo-a-passo o que é necessário para o músico produzir seu trabalho digitalmente. “Produzir música em computadores tornou-se possível para todos os que tiverem um pouco de capital e muita paciência”, diz Felipe. No último encontro, dia 16, sobre Direito Autoral e produção de riquezas na era digital, Felipe aborda iniciativas como o Creative Commons e as novas modalidades do direito autoral. Acesse o site da Cooperativa de Música (www.cooperativademusica.com.br) e conheça na íntegra os textos de apresentação dos Encontros Digitais produzidos por Felipe Julián.

Sobre Felipe Julián

Felipe Julián é músico e membro da Cooperativa de Música. Integra o grupo AXIAL e trabalha com edição e produção de áudio para vídeo, teatro, dança e artes plásticas. Realizou diversas oficinas educativas de “áudiocenografia e informática musical” junto aos SESCs da capital. Foi responsável pelo desenvolvimento de um dos primeiros sistemas customizáveis e compartilháveis de música on-line na Internet Brasileira: o player do CBMS (Catálogo Brasileiro de Músicos e Serviços) site que administrou até o dia em que o servidor pifou perdendo todos os dados. Criou o CDVirtual, sistema de streaming permitindo o envio de CDs inteiros por e-mail. Acesse o endereço
http://www.axialvirtual.com/ e conheça mais sobre o trabalho do grupo Axial.

SERVIÇO:

ENCONTROS DIGITAIS NA COOPERATIVA DE MÚSICA

2 DE JUNHO – Difusão e Comercialização na Internet
9 DE JUNHO – Produção Musical – hardware, software e internet
16 DE JUNHO – Direito Autoral e Produção de Riquezas na era Digital


Hora: das 16 às 19h

Local: Sede da Cooperativa de Música em São Paulo (Av. professor Alfonso Bovero, 613 – Perdizes)

Telefone: (11) 3803 9290

GRATUITO

Confirme sua participação até 30 de maio.

Visite o site
www.cooperativademusica.com.br e ajude a divulgá-lo.

Cooperativa de Música – Rua Alfonso Bovero, 613 Cep: 05019-011
Tel: (11) 3803 9290 Subsede Tatuí – Praça da bandeira, 95 Sala 15
Cep: 18270-000 Tel(15) 3205 3108

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