A Missão de hoje (do site OVERMUNDO)

Este texto do colega virtual Hermano Vianna fala sobre a publicação da caixa com 6 CDs contendo parte dos registros das missões de pesquisas folclóricas de Mário de Andrade. Este material, sendo objeto direto derecriações do AXIAL merece então ser posto em discussão neste nosso blog. A integra da matéria do Hermano você encontra no site OVERMUNDO
"A viagem da Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada por Mário de Andrade e realizada em 1938, é um daqueles acontecimentos centrais para a compreensão dos rumos tomados pela cultura brasileira, e pela noção de identidade brasileira, no Século XX. Mas como tantos outros desses acontecimentos, sempre foi mais citada do que conhecida. Não havia muito como conhecer: até o final de 2006, era quase impossível ter acesso a seus registros (músicas, fotografias, filmes, objetos etc.) a não ser depois de longa peregrinação para uma sala do Centro Cultural São Paulo, onde estavam guardados com muito cuidado (o que significava também - e de certa forma ainda bem! - uma dificuldade extra para conseguir autorizações para pesquisar as Pesquisas). Então tudo contribuía para que o material ficasse envolto em mitos, ou ganhasse a aura de uma preciosidade artística com a qual nunca poderíamos estabelecer contato.Eu sempre ouvia falar dos registros, mas meu único contato com eles foi através de um CD, lançado pela Biblioteca do Congresso Americano dentro do Projeto Música em Perigo (reparem no nome, que certamente ajudava a fortalecer o mito...), contendo apenas 23 faixas curtinhas. Sabia, pelo livro Acervo de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade 1935-1938, que havia mais de 1.200 fonogramas registrados nas viagens. Ficava sonhando com o o que eu não escutara, e já estava me acostumando com a idéia que nunca iria escutar... Mas para alegria geral da nação, o Centro Cultural São Paulo, a Secretaria de Cultura de São Paulo (dirigida por Carlos Augusto Calil, que felizmente havia sido diretor do CCSP e portanto tinha grande familiaridade com o material), e o SESC-SP (que felizmente é dirigido pelo Danilo Miranda) deram fim ao mistério lançando uma caixa com 6 CDs (nesse link você pode ouvir as músicas, ver fotos, ler mais textos etc.) contendo o melhor desses registros sonoros. Diante de tanta demora, saudei o lançamento como acontecimento tão importante quanto a própria realização da Missão! (E já deu no New York Times!)Então: o material precioso é agora acessível. O que devemos fazer com ele? Poderíamos manter em seu entorno a atitude reverencial que votamos aos mitos mais sagrados, descobrindo ali todas nossas mais profundas raízes de autêntico povo brasileiro. O ideário da Missão alimenta essa reverência: era como se aquilo tudo a ser registrado fosse acabar no dia seguinte (e não acabou, muitas dessas músicas continuam vivas, e algumas até mais fortes do que eram antes, como pude perceber nas viagens do Música do Brasil); era como se tudo aquilo fosse puro, sem contato com a modernidade (o que escutar as próprias músicas desmente, como vou comentar em detalhes adiante). Então minha proposta vai em sentido contrário ao da "busca de raízes": vamos acabar com o mito de uma vez por todas? Aqui não vai nenhuma sugestão de desrespeito, ou de profanação inconseqüente: na verdade penso no mais profundo respeito, que sirva para dar nova vida para o material, que já está digitalizado e pode ser "manuseado" com vigor, sem perigo de "desaparecimento" dos registros (que esse era sim um perigo real, físico). Pensei num exercício um tanto ou quanto iconoclasta, mas ao mesmo tempo e paradoxalmente devoto: queria escutar as músicas sem pensar em sua distanciadora importância histórica, ou "mitológica" - queria escutar esses CDs como se fossem quaisquer outros CDs, lançados hoje - queria investigá-los para saber o que eles têm a dizer para o mundo de hoje, esquecendo o seu lado de "peças de museu". O que resta dessas músicas, sem o mito? E o que elas iluminam na musicalidade brasileira (seja pop ou "tradicional") de hoje?É o que vou fazer aqui: uma série de comentários sobre as faixas com as quais estabeleci um diálogo, digamos assim, contemporâneo (por favor: não procure aqui rigor etnomusicológico: a intenção é completamente outra...) Que músicas me fazem dançar? Como ouvir essas músicas com ouvidos pós-tropicalistas, pós-música-eletrônica-de-pista-de-dança, pós-barulho-do-rock-and-roll? Há conexões possíveis? Veremos. O que apresento a seguir é apenas o início dos trabalhos - é uma obra aberta e inacabada. Vou continuar completando o exercício, nos comentários, toda vez que tiver algo a falar sobre uma outra música, toda vez que estabelecer links entre elas e o mundo de hoje (ou com a maneira como o mundo de hoje pensa seu passado musical/cultural brasileiro). Convido todo mundo para entrar na brincadeira. Escute os discos, faça suas próprias conexões. Pode até pegar caronas nas minhas conexões, ou desconectá-las, propondo novos links. Seria bom começar também a remixar os registros (não sei se os direitos autorais permitem...) ou a fazer logo suas novas versões (como o pessoal do Projeto Axial já faz). O objetivo: aproveitar os lançamentos dos CDs e colocar essas músicas novamente para circular. No meu entender, não poderíamos fazer nada melhor, ou ter maior respeito, por elas.Sendo assim... Vamos às músicas:"
Veja a lista e os comentários destas músicas no site Overmundo na matéria: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-missao-de-hoje
Parabens ao Hermano Vianna!
Marcadores: brasil, Creative Commons

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