Fórum do AXIAL: abordagem do material literário para compor

Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

abordagem do material literário para compor

Minha primeira relação com uma forma artística foi com a literatura. Desde cedo leio livros que me eram presenteados, de conteúdo literário, e esses são os momentos de solidão, na infância, dos quais mais me recordo. Na adolescência a coisa continuou com a descoberta de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira... e também a descoberta da poesia. Me parece que a poesia poderia ter sido apreciada desde a infância. Tenho lido algumas coisas sobre a origem da Linguagem e muitos concordam de que a linguagem primitiva teria sido muito mais poética que em prosa. A linguagem teria surgido a partir de um ludismo com as sonoridades produzidas, de um jogo ao nomear objetos, acontecimentos e sentimentos. Nisso ela seria o mesmo que música, uma linguagem só, a do som/significado, do sopro/verbo.

Passei muitos anos sendo apenas cantora, e procurando palavras para serem cantadas. Comecei a encontrar compositores, amigos de almas irmãs, cantando suas músicas eu me sentia representando algo íntimo. E certos compositores, como o Lincoln Antonio, sempre fizeram música sobre poesia. Eu sempre tive, e ainda tenho, uma predileção por cantar essas canções.

Aos poucos comecei a ter necessidade de que o que eu cantasse fosse realmente um afloramento meu e precisei compor. Mas quando comecei a compor não me vinham palavras, vinha música. E naturalmente procurei poesia pra musicar. Comecei com uma forma poética ioruba, que são os orikis. A característica deles é já ser algo híbrido, mais primitivo como o que falei no começo, meio fala meio canto, proclamação/declamação das características de um orixá. No princípio, nas comunidades primitivas, devia ser cantofalado, como um coro grego original, música e palavra realmente sendo um só. Então é uma forma poética muito própria pra se fazer canção, ela tem esse espaço, tem isso na sua natureza.

Depois tive uma experiência oposta que foi musicar João Cabral de Melo Neto. Aí a coisa foi pura invasão mesmo, abrir a poesia e entrar dentro dela (como diria o Manoel de Barros). Porque o João Cabral dizia não gostar de música, a poesia dele é plena em si, não falta nada, não aconteceu de eu olhar e sentir que aquilo pedia música... Foi realmente uma colagem, uma agregação de linguagem que os artistas contemporâneos têm tanta facilidade e ímpeto de fazer.

Outro passo foi procurar poetas amigos, contemporâneos, pra musica. Encontrei o Sérgio Cohn, e aí não me sinto tanto invadindo a obra, apesar de ter sido o mesmo processo de abrir o livro, achar o poema, e trabalhar nele. Por ser alguém com quem isso tem troca posterior já me soa mais uma parceria.

Tem uma música que fiz com uma letra de música dada por uma amiga, Laura Ghellere, já pensada pra ser letra de música. E estou chegando, agora, a tentar fazer letra. Comecei há um tempo, muita coisa é esquecida, deixada de lado, mas algumas ficam. Nesse tipo de composição não considero que se produza literatura, mas essa linguagem híbrida mesmo, que é a canção. Às vezes se faz um poeminha para musicar e quando a música chega ela altera um pouco a poesia que foi escrita. Ás vezes chegam letra e música juntos.

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

muitas vezes, o material literário é utilizado indiretamente para compor uma canção, ou mesmo uma melodia. Uma idéia, uma imagem literária podem "engravidar" o compositor e gerar novas obras, sendo que o sentimento expresso na obra literária permanece na obra musical mesmo que aparentemente o assunto da letra seja outro. A literatura inspira, as artes se alimentam entre si.
Agora exemplificando um pouco, algumas das minhas músicas se relacionam com a literatura de diferentes maneiras, uma delas chamada "Turupá", feita em parceria com Ricardo Barros, Eu estava lendo o "Grande Sertão Veredas", do Guimarães Rosa, e me chamou a atenção a quantidade e a variedade de nomes utilizados para se referir ao diabo,( tinhoso, pé-de-pato, oque-não-se-ri, canho, o sem-nome, o pai da mentira...) e resolvi escrever uma letra utilizando aquela variedade de nomes. No caso, a canção não seria um trecho do livro musicado, mas sim, uma canção feita a partir de uma idéia apresentada, e de informações contidas no livro. Outra canção, chamada "O homem bomba", foi composta inspirada no poema "o lutador" do Drummond. O poema é um metapoema, e fala da dificuldade de escrever um poema, a canção então, seria uma metacanção, e me utilizo do assunto, comum a todos os artistas, da dificuldade de compor uma canção. Comparando o poema com a canção, a unica coisa em comum é esse sentimento, pois as palavras foram utilizadas de maneira diferente, a estrutura é diferente, a linguagem é diferente e não se nota aparentemente uma relação entre as obras.
quem quiser conhecer as duas canções, pode encontrar no Lastfm, procurando por Fabio Barros e grupo Grão, disco Circo de Pulgas.
obrigado
um abraço para todos!
Fabio Barros

2 de Julho de 2007 12:28  

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