Matéria no Rraurl! :: Entrevista com Felipe Julián para o DJ Felicio Marmitex
O inquieto colega, DJ, agitador cultural, produtor musical, pesquisador e garibador Felicio Marmitex gerou esta bela matéria para o site Rraurl. Veja aqui alguma pouca informação introdutória sobre esse sujeito que está despontando no underground da produção musical brasileira: http://rraurl.uol.com.br/marmitex
O Rraurl tornou-se um site referência para a produção músical principalmente dentro do universo da música eletrônica. http://rraurl.uol.com.br/
Veja a matéria publicada na integra neste link: http://rraurl.uol.com.br/cena/6014/
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A audiocenografia de Felipe Julián
por Felicio Marmitex
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A audiocenografia de Felipe Julián
por Felicio Marmitex
Conheça o frontman da banda paulista Axial, nome forte da música eletroacústica
Homem à frente do projeto de pop experimental Axial, Felipe Julián, é um músico e produtor free-style que não pára quieto um segundo, e a cena musical paulistana agradece. Destaque do evento Homem-Banda na Mostra SESC de Artes 2008, Felipe Julián alimenta a sua fúria musical com princípios de música eletroacústica, poesia e cultura livre virtual. No teatro do SESC Paulista em outubro último estes elementos foram jorrados na cara do público, e a dose é praticamente a mesma para quem assiste ao show do seu grupo Axial, como no TIM Festival carioca do ano passado.
Julián está sempre metido em apresentações inusitadas, acompanhando filme mudo em formato live PA, e até catarses poéticas em aparatos sonoros próprios. Mas como um bom profissional da música, ele costuma realizar trilhas para teatro e outras áreas. E vai além: envolvido na cena de arte contemporânea de São Paulo, Julián não se contenta com o trivial metiê da produção de trilhas comerciais, e encabeça a audiocenografia na cidade.
A SUBVERSÃO SERÁ MUSICADA
Desde 2005, este baixista especializado em eletroacústica ministra workshops sobre audiocenografia na rede SESC, incentivando a criação de áudio-esculturas colaborativas e trilhas voltadas às artes plásticas, instalações e web-arte. "Há muita demanda por 'trilhas-sonoras' que atuem como uma ambientação mais do que como um elemento narrativo. Estamos na era da imersão. Na era do entorno sensitivo. Nada é tão suficientemente fluido para ocupar todos os espaços ao redor do espectador como o som é. O som é tridimensional, omnidirecional e transparente. Isso é muito útil a todos os artistas plásticos, por exemplo", conta ao rraurl.
O figura, que é apaixonado pelos aspectos sensoriais do vasto universo do áudio, acredita que, por ser invisível e fluido, o som passa a ter um potencial subversivo. "Muito interessante numa sociedade baseada na exploração da imagem. Ele se infiltra. Invade. E não pode ser pego nem domado".
As oficinas, que transformaram as salas de Internet Livre dos SESCs em orquestras de auto-falantes, resultaram no interessante CD-Virtual Audiocenografia. O disco é, na verdade, um player em arquivo flash que você pode baixar livremente aqui, sob Creative Commons. Outro trabalho colaborativo de Felipe Julián foi a instalação fotográfica e sonora A Grande Linha, ao lado dos fotógrafos Edu Marin e Daniel Trench. Composta por 80 imagens de horizontes marítimos, registradas por 25 artistas e sonorizadas por 20 alto-falantes com trilha própria, a obra integrou a extensa Mostra SESC de Artes - Mundo Mediterrâneo, de 2005.

Com os amigos Edu Marin e Daniel Trench, Julián também já havia encabeçado outro projeto ousado, o CD-Livro Urbanogramas, realizado com apoio do Ministério da Cultura e lançado no Museu da Imagem e do Som em 2003. No livro, clicks urbanóides de seis fotógrafos convidados, além dos dois diretores. No CD, recursos binaurais de gravação para simulação de áudio tridimensional ("que podem ser melhor percebidos com fones de ouvido"). Sua trilha sonoplástica, à la Amon Tobin, ainda foi utilizada para a peça monólogo multimídia SMPNF1974, de Fernanda Barcelos.
"Eu já havia experimentado produzir música com ruídos antes, com um trio de funk com o qual eu toquei na faculdade. No caso do Urbanogramas, a minha proposta foi criar um trabalho que me servisse de pesquisa para, depois dele, produzir outros. Não é um processo muito comum sem dúvida. Se por um lado nossa relação de amizade permitiu a coerência entre as partes, por outro lado, ter feito dessa forma, garantiu a independência entre elas, pois o que estávamos produzindo não era um audiovisual. Assim, não ficamos procurando a sincronia de imagem e som, mas sim um sincronismo conceitual", revela Julián.
SENSIBILIDADE ORGÂNICA NO CONTROLE DIGITAL?
Na já mencionada mostra Homem-Banda, Julián desenvolveu um show solo que evidenciou a construção poético-musical que costuma aflorar nas entrelinhas do estúdio do Axial. O produtor extrapolou este lado com uma performance sonoro-musical baseada na constituição de um poema. Para cada palavra escrita e logo pendurada num barbante que atravessava o palco, ele criava ambiências e texturas sonoras, que no final constituíram o universo simbólico do texto construído durante a apresentação.
Usando laptops, controladores digitais, teclado, samples baixados livremente e um contrabaixo construído por ele mesmo, o caráter poético também se afirmava na gestualidade de sua escrita das palavras durante o live PA.
A plataforma de apoio dos papéis, uma prancheta com captadores de cordas amplificados para dentro do Ableton Live, emitia sons pré-programados no software, de acordo com os seus movimentos. "A Prancheta, como eu tenho chamado este instrumento, combina uma seqüência de ressonadores e delays, com gates e compressores, de forma que eu conseguia ter dois 'arpejadores' e um bumbo de bateria dependendo da forma como eu tocasse. Outras texturas também podiam ser obtidas se eu raspasse as unhas ou esfregasse os dedos. Usei muitas vezes no Axial para tocar uma música chamada "Torre das Mercês", onde havíamos gravado sons de um lápis desenhando no papel".
A opção por este gadget sônico rústico nasceu da necessidade de ter uma aproximação maior e mais sensível no controle digital. "O grande lance era obter uma interface que gerasse sons digitais muito mais sensível do que as interfaces controladoras MIDI. Queria obter sons diferentes da mesma forma que é possível se usando um violino tocando ponticello, tenuto, sforzando, legno etc... Isso tudo não dá pra fazer com um controlador normal", explica ele, que vive buscando formas de tornar a relação mais humana com a máquina.
Outro live para seu currículo de produção musical foi a sonorização em formato live PA do filme mudo O Grande Desfile. À convite do curador Livio Tragtenberg, trilheiro vanguardista de marca maior do país, Julián realizou o acompanhamento musical ao vivo. Na II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira, em agosto, os produtores brindaram com a clássica forma da trilha-sonora feita na era dos filmes mudos.
AXIAL
Mesmo com tantos trabalhos expostos na cena musical contemporânea de São Paulo, quando o assunto é o Axial, os olhos dele brilham. Com a cantora, pianista e sua esposa Sandra Ximenez e Leonardo Muniz Corrêa, que processa efeitos em seus instrumentos de sopro durante a improvisação, Julián incorpora a canção tradicional, combinando música instrumental e princípios da música eletrônica (eletroacústica), com pontos de candomblé e cânticos.
AXIAL - Mediterrâneo (mp3)
"O que eu sempre vou tentar fazer é distribuir o contraponto entre vários instrumentos ao invés de deixar tudo na mão do violão ou do piano. Isso soa muito jazz ou muito bossa demais pra mim. Na verdade, sou a favor do contraponto acima de tudo. Seja na harmonia ou na mixagem. Gosto dessas mixagens onde cada elemento contribui para o todo, mas ele tem vida própria e conta sua história também se você prestar atenção".
Militante da Cultura Livre, o Axial lançou dois álbuns, Axial (2004) e Senóide (2007) gratuitamente em seu site, e já teve mais de 180.000 downloads. O grupo se apresenta geralmente em salas de teatro, como no Itaú Cultural, além do já mencionado SESC. Produtores culturais, que tal um show de fim de tarde em algum parque arborizado com a cara do Axial?
AXIAL - Torre das Mercês (mp3)
Julián está sempre metido em apresentações inusitadas, acompanhando filme mudo em formato live PA, e até catarses poéticas em aparatos sonoros próprios. Mas como um bom profissional da música, ele costuma realizar trilhas para teatro e outras áreas. E vai além: envolvido na cena de arte contemporânea de São Paulo, Julián não se contenta com o trivial metiê da produção de trilhas comerciais, e encabeça a audiocenografia na cidade.
A SUBVERSÃO SERÁ MUSICADA
Desde 2005, este baixista especializado em eletroacústica ministra workshops sobre audiocenografia na rede SESC, incentivando a criação de áudio-esculturas colaborativas e trilhas voltadas às artes plásticas, instalações e web-arte. "Há muita demanda por 'trilhas-sonoras' que atuem como uma ambientação mais do que como um elemento narrativo. Estamos na era da imersão. Na era do entorno sensitivo. Nada é tão suficientemente fluido para ocupar todos os espaços ao redor do espectador como o som é. O som é tridimensional, omnidirecional e transparente. Isso é muito útil a todos os artistas plásticos, por exemplo", conta ao rraurl.O figura, que é apaixonado pelos aspectos sensoriais do vasto universo do áudio, acredita que, por ser invisível e fluido, o som passa a ter um potencial subversivo. "Muito interessante numa sociedade baseada na exploração da imagem. Ele se infiltra. Invade. E não pode ser pego nem domado".
As oficinas, que transformaram as salas de Internet Livre dos SESCs em orquestras de auto-falantes, resultaram no interessante CD-Virtual Audiocenografia. O disco é, na verdade, um player em arquivo flash que você pode baixar livremente aqui, sob Creative Commons. Outro trabalho colaborativo de Felipe Julián foi a instalação fotográfica e sonora A Grande Linha, ao lado dos fotógrafos Edu Marin e Daniel Trench. Composta por 80 imagens de horizontes marítimos, registradas por 25 artistas e sonorizadas por 20 alto-falantes com trilha própria, a obra integrou a extensa Mostra SESC de Artes - Mundo Mediterrâneo, de 2005.
Audio-escultura // A Grande Linha

Com os amigos Edu Marin e Daniel Trench, Julián também já havia encabeçado outro projeto ousado, o CD-Livro Urbanogramas, realizado com apoio do Ministério da Cultura e lançado no Museu da Imagem e do Som em 2003. No livro, clicks urbanóides de seis fotógrafos convidados, além dos dois diretores. No CD, recursos binaurais de gravação para simulação de áudio tridimensional ("que podem ser melhor percebidos com fones de ouvido"). Sua trilha sonoplástica, à la Amon Tobin, ainda foi utilizada para a peça monólogo multimídia SMPNF1974, de Fernanda Barcelos.
"Eu já havia experimentado produzir música com ruídos antes, com um trio de funk com o qual eu toquei na faculdade. No caso do Urbanogramas, a minha proposta foi criar um trabalho que me servisse de pesquisa para, depois dele, produzir outros. Não é um processo muito comum sem dúvida. Se por um lado nossa relação de amizade permitiu a coerência entre as partes, por outro lado, ter feito dessa forma, garantiu a independência entre elas, pois o que estávamos produzindo não era um audiovisual. Assim, não ficamos procurando a sincronia de imagem e som, mas sim um sincronismo conceitual", revela Julián.
SENSIBILIDADE ORGÂNICA NO CONTROLE DIGITAL?
Na já mencionada mostra Homem-Banda, Julián desenvolveu um show solo que evidenciou a construção poético-musical que costuma aflorar nas entrelinhas do estúdio do Axial. O produtor extrapolou este lado com uma performance sonoro-musical baseada na constituição de um poema. Para cada palavra escrita e logo pendurada num barbante que atravessava o palco, ele criava ambiências e texturas sonoras, que no final constituíram o universo simbólico do texto construído durante a apresentação.
Usando laptops, controladores digitais, teclado, samples baixados livremente e um contrabaixo construído por ele mesmo, o caráter poético também se afirmava na gestualidade de sua escrita das palavras durante o live PA.
A plataforma de apoio dos papéis, uma prancheta com captadores de cordas amplificados para dentro do Ableton Live, emitia sons pré-programados no software, de acordo com os seus movimentos. "A Prancheta, como eu tenho chamado este instrumento, combina uma seqüência de ressonadores e delays, com gates e compressores, de forma que eu conseguia ter dois 'arpejadores' e um bumbo de bateria dependendo da forma como eu tocasse. Outras texturas também podiam ser obtidas se eu raspasse as unhas ou esfregasse os dedos. Usei muitas vezes no Axial para tocar uma música chamada "Torre das Mercês", onde havíamos gravado sons de um lápis desenhando no papel".
A opção por este gadget sônico rústico nasceu da necessidade de ter uma aproximação maior e mais sensível no controle digital. "O grande lance era obter uma interface que gerasse sons digitais muito mais sensível do que as interfaces controladoras MIDI. Queria obter sons diferentes da mesma forma que é possível se usando um violino tocando ponticello, tenuto, sforzando, legno etc... Isso tudo não dá pra fazer com um controlador normal", explica ele, que vive buscando formas de tornar a relação mais humana com a máquina.Outro live para seu currículo de produção musical foi a sonorização em formato live PA do filme mudo O Grande Desfile. À convite do curador Livio Tragtenberg, trilheiro vanguardista de marca maior do país, Julián realizou o acompanhamento musical ao vivo. Na II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira, em agosto, os produtores brindaram com a clássica forma da trilha-sonora feita na era dos filmes mudos.
AXIAL
Mesmo com tantos trabalhos expostos na cena musical contemporânea de São Paulo, quando o assunto é o Axial, os olhos dele brilham. Com a cantora, pianista e sua esposa Sandra Ximenez e Leonardo Muniz Corrêa, que processa efeitos em seus instrumentos de sopro durante a improvisação, Julián incorpora a canção tradicional, combinando música instrumental e princípios da música eletrônica (eletroacústica), com pontos de candomblé e cânticos.
"Queria obter sons diferentes do digital, da mesma forma que é possível se usando um violino"Julián, que circula no universo acadêmico como professor de Produção Musical na Anhembi Morumbi, é especialista em eletroacústica, e é dos raros exemplos de músicos que conseguem tirá-la do campo teórico, injetando a noção clássica da arte do ruído como fonte sônica na maioria dos seus trabalhos - do hit "Mediterrâneo", do Axial, às trilhas.
AXIAL - Mediterrâneo (mp3)
"O que eu sempre vou tentar fazer é distribuir o contraponto entre vários instrumentos ao invés de deixar tudo na mão do violão ou do piano. Isso soa muito jazz ou muito bossa demais pra mim. Na verdade, sou a favor do contraponto acima de tudo. Seja na harmonia ou na mixagem. Gosto dessas mixagens onde cada elemento contribui para o todo, mas ele tem vida própria e conta sua história também se você prestar atenção".
Militante da Cultura Livre, o Axial lançou dois álbuns, Axial (2004) e Senóide (2007) gratuitamente em seu site, e já teve mais de 180.000 downloads. O grupo se apresenta geralmente em salas de teatro, como no Itaú Cultural, além do já mencionado SESC. Produtores culturais, que tal um show de fim de tarde em algum parque arborizado com a cara do Axial?
"Filha da Palavra" ao vivo em São Paulo - Teatro Frei Caneca | 2007
AXIAL - Torre das Mercês (mp3)
AXIAL, POR HERMANO VIANNA
"O Axial lançou um dos discos mais belos e "transculturais" da história recente da música brasileira. Vodu do Haiti, coco da Paraíba, orikis do candomblé da Bahia e baião das princesas do Maranhão se encontram com as técnicas eletroacústicas de organização sonora e o resultado é de uma delicadeza comovente. Quem estiver precisando de uma reza diferente que vá direto escutar Torre das Mercês, ainda mais singela, pois cantada com sotaque bem paulistano."
