Blog Projeto Axial: Bem vindo ao século XXI.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Bem vindo ao século XXI.

Grupo Axial prepara novo trabalho atento às principais questões que desafiam os paradigmas artísticos de nosso tempo.

por Carlos Dalla

Prestes a lançar seu terceiro disco, que se chamará SiMBiOSE, o Axial parece empenhado em aprofundar sua proposta artística na direção das questões que têm norteado as produções mais recentes e vanguardistas no campo da música. O próprio conceito em que se baseia o novo trabalho é um exemplo disso. Incorporando preceitos da visão ecológica e sistêmica, Felipe Julian, um dos fundadores do grupo, afirma que “SiMBiOSE faz referência a essa relação de inter-dependência que caracteriza o mundo contemporâneo: “nós do Axial, enquanto um organismo, dependemos de outros organismos para produzir nosso trabalho. Podem ser os parceiros como kiko Dinucci e Chico Correa, de quem estamos remixando músicas para incorporar ao repertório, ou de pessoas que, via Internet, enviaram sons para bancos públicos de samples que nós usamos, ou mesmo pessoas que nos ajudaram emprestando equipamentos de gravação, etc...”.

Pode parecer pouca coisa, mas não é. Por trás de uma constatação simples como essa, encontramos um dos desenvolvimentos conceituais mais importantes dos últimos 30 anos, que tem exercido influência decisiva em diversos campos do saber e do fazer humanos. A tendência de se dar cada vez mais atenção aos processos, em detrimento dos resultados finais, vem há algum tempo exigindo seu espaço no âmbito das ciências e das artes, mas só agora parece estar sendo incorporada de forma mais consistente no campo da música. Outra questão intimamente ligada a esta, e que se encontra explícita na fala de Julian, diz respeito à busca por orientar o foco para o aspecto relacional dos fenômenos, ao invés de restringi-lo ao aspecto meramente estrutural. Isso permite que se desenvolva uma perspectiva dialógica que confirma e dá ancoragem ao que diversos grupos da atualidade têm intuitivamente buscado e experimentado em seus trabalhos. Os coletivos musicais estão aí para comprovar isso.

É importante também ressaltar que nenhuma proposta estética está desvinculada de seu desdobramento ético. E isso é algo a respeito do qual os integrantes do Axial parecem ter plena consciência. É o próprio Julian quem diz: “No final das contas, toda obra de arte é fruto da conspiração de muitas pessoas e instituições que têm por objetivo final destruir o mundo pra ele ficar melhor. Estamos reverenciando todos estes terroristas que, artistas ou não, fazem da arte sua arma de reconstrução em massa”.

Tendo surgido como uma proposta interdisciplinar que só posteriormente virou banda, o Axial busca o diálogo não apenas com outros organismos ligados ao meio musical, mas também com as linguagens do vídeo e do corpo. O foco na interação entre linguagens se alinha de forma precisa com a proposta de explorar o universo da sensorialidade contemporânea através da arte: “a sensorialidade é uma demanda do público contemporâneo, que historicamente viveu num regime de repressão que não era apenas ideológico, mas também ligado à liberdade do corpo”, diz Felipe, que continua: “em determinado momento, surgiram diversos movimentos sócio-culturais que lançaram as bases de uma sociedade mais voltada ao prazer do que ao lucro. Esses movimentos encontraram na tecnologia digital uma familiaridade ancestral que lhes permitiu comunicar-se com mais gente”.

O site do grupo já registrou mais de 40 mil downloads dos dois discos anteriores, “Axial”, de 2004, e “Senóide”, de 2007. Esta procura é fruto da política de distribuição adotada pelo grupo, que licencia todo o conteúdo produzido em Creative Commons. Isso significa que as pessoas podem adquirir os discos gratuitamente no próprio site da banda. Parece existir uma coerência natural entre os diversos níveis em que o grupo atua, conferindo ao trabalho do Axial uma consistência que o faz ser admirado e citado por pessoas que estudam e se dedicam ao trabalho no campo da arte e da cultura. A opção pela distribuição dentro dos princípios do Creative Commons acaba sendo um desdobramento de todas as outras opções feitas pelo grupo. Já dizia um dos pioneiros do pensamento pelo padrão em rede, Gregory Bateson, que a consistência das relações é que define a qualidade do organismo, bem como sua capacidade de se desenvolver e atuar no meio. Pela forma com que percebemos os diversos aspectos do trabalho do Axial se integrando e se articulando, podemos esperar muitos anos de atuação inventiva e criativa do grupo na cena independente musical. Vamos aguardar para ouvir se “SiMBiOSE”, confirmará esta previsão.


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