Faixa 1 – PAPALOKO
(domínio público, canção de escravos do Haiti)
Papaloko ou sé van
Pousé-n alé
Nou sé papiyon
Na pote nouvèl bay agoué
E tou sa ki di biyin
Jé-m layé
E tou sa ki di mal o-o
Jé-m layé
Papaloko ou sé van éy
Pousé-n alé
Nou sé papiyon
Na poté nouvèl bay agoué
Paròl Papaloko, paròl ampil-o
Pousé-n alé
Nou sé papiyon
Na poté nouvèl bay agoué.
Comentário:
É uma faixa emblemática do trabalho. De um lado por ser uma canção do Haiti em um idioma extremamente sonoro, musical, o “creol” que mistura línguas africanas com francês. Por outro lado, percebemos que essa sonoridade já trás carregada em si mesma o significado da letra: refere-se à entidade Papaloko, o arquétipo do Vento no Vodu do Haiti, dizendo que somos borboletas, que ele nos leve, sopre, nos empurre, que iremos levar boas novas aos outros. Ou seja, descreve a própria função do artista, do encontro em torno da música, seja num show ao vivo, em festas, numa roda ou por meio de caixas de som.
Faixa 2 – TAMANQUERO
(domínio público, coco da Paraíba anotado por Mário de Andrade)
Tamanquero quero um pá, quero um pá, quero um pá
Eu quero um pá de tamanco pr’eu calçá
Mas habitava Adão nesse jardim
Ai que Jesus pra ele tinha plantado
Ai mas um dia se viu triste isolado
Foi se queixar a Jesus dizendo assim:
A beleza que fizeste para mim
Ai não me dá prazer nem alegria
Jesus Cristo perguntou o que queria
Ele disse: Senhor o meu desejo
Ah é ver outro igual a mim porque não vejo
Um outro ser que me faça companhia
Ah é ver outro igual a mim porque não vejo
Um outro ser que me faça companhia
Tamanquero quero um pá, quero um pá, quero um pá
Eu quero um pá de tamanco pr’eu calçá
Comentário:
História do princípio, gênese, axis, quando Adão pede um par pra ele. A história é contada na música. A narradora, na canção, também pede por um par pra ela própria. Pro eixo ter uma outra ponta e se construir. A nossa versão é cheia de sons abstratos eletroacústicos que expressam a complexidade e até “violência” do tema.
Sensualidade e madeira. Vemos dois cenários metafóricos: uma marcenaria rustica onde seriam fabricados tamancos de madeira e uma menina adolescendo rezando em seu quarto. Esta última cena foi reforçada na música atraves da adiçâo de várias vozes rezando enquanto a voz principal continua cantando a melodia.
Faixa 3 – ORIKI DE OXUM
(música: Sandra Ximenez, letra: adaptação de oriki nagô-iorubá transcriado por Antonio Risério)
Água que vai para o mar
Teus cílios luzes para mim
Mãe suave, ave leve
Ave leve, eleva-me.
Comentário:
Poeminha musicado, a princípio ostumava ser cantado apenas com voz e teclado, bem simples. No CD, ganhou sons mágicos lembrando um encantamento, um pedido a uma Mãe D’Água, que se realiza ao final: “eleva-me”.
Faixa 4 – PAPADANMBALAH
(domínio público, canção de escravos do Haiti)
Roy, Papadanmbalah
Papadanmbalah, Danmbalah
Ou konnin n´sé pitit-ou Papa
Papadanmbalah, Danmbalah
Louvri Jé-ou pou gadé-n
Danmbalah éy
Mapé mandé ou
Koté ouap kité pitit ou-yo
Danmbalah roy
Fo ou vini ouè
Nan ki mizè pitit ou yé.
Roy, Papadanmbalah
Comentário:
Outra canção do Haiti, como Papaloko. Essa diz respeito ao povo negro escravizado e querendo liberdade. Continua sendo atual por tudo o que não pára de passar o povo do Haiti até hoje política e socialmente. A letra pede ao Papadambalah que abra os olhos e veja suas crianças, que são o povo do Haiti.
Para nós tem algo a ver com as guerras, com libertação da violência. O arranjo vai crescendo e se tornando cada vez mais um lamento, pedindo a ajuda de Papadanmbalah.
Faixa 5 – ESPAÇO VAZIO
(música: Lincoln Antonio, letra: fala-poema de Stela do Patrocínio)
Eu era ar e tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio, tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim
Eu era ar e tempo
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Céu da boca, falatório
Fazer músculo, fazer dente
Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio, fazer cabeça
Não tinha onde tirar
Eu era espaço vazio
Eu não sei como é que pode formar uma cabeça
Um olho enxergando, nariz respirando
Boca com dentes
Orelhas ouvindo vozes
Pele, carne, ossos
Altura, largura, força
Pra ter força
O que é preciso fazer
Tomar vitamina
É preciso vitamina.
Comentário:
Fala-poema de Stela do Patrocínio, interna da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, por quase 30 anos. Por meio da voz da Stela, tocamos na gênese novamente, de outra forma, questionando a existência: como isso foi possível de acontecer? E também contemplamos seu pensamento, suas “lembranças” de transformação desde que era “ar e tempo, espaço vazio” até virar de carne e osso.
Nossa versão sugere várias vozes dentro da mesma cabeça, uma confusão, algo se dissipando e voltando a ser puro ar.
Usamos sons especiais como ruidos brancos, fricções e outros que, mantém o tempo todo uma idéia de coisa analógica. É como se fosse um video clip feito em super8. Também há sons de catracas de bicicletas e outros sons mecanicos dando idéia de funcionamento, engenhocas, etc.
FAIXA 6 – TORRE DAS MERCÊS
(domínio público, canção das caixeiras da Casa Fanti-Ashanti)
Lá na torre das mercês
meu olhar perdeu de vista, ai Deus
Lá no céu tem uma estrela
que faz as outras bonita, ai Deus
Comentário:
Fizemos o canto repetido algumas vezes com o teclado e enchemos de sons e ambiências de espaços abertos. Também tem um som de alguém desenhando muito com um lápis sobre papel. A simplicidade da letra e o deleite de uma criança desenhando trazem um clima lúdico frequente no Axial.
FAIXA 7 – BURITI
(música: Felipe Julián, texto adaptado: João Guimarães Rosa)
Trás noite, trás noite, o mundo perdeu suas paredes. Fere um grilo, serrazim. Silêncio.
E os insetos são milhões. O mato – vozinha mansa – aeiouava. Do outro mato, os respondidos. Um peixe espiririca. Um trapejo de remo. Um gemido de rã. O seriado túi-túi dos paturis e maçaricos, nos piris do alagoado.
Nunca há silêncio.
As ramas do mato, um vento, galho grande rangente. As árvores querem repetir o que de dia disseram as pessoas. Frulho de pássaro arrevoando – decerto temeu ser atacado.
No silêncio nunca há silêncio.
Se assoviaram e insultaram os macacos, se abraçam com frio. Tiniram dentes. Reto voa o notibó, e pousa. O chororocar dos macucos, nas noites moitas, os nhambus que balbuciam tremulantes. Se a pausa é maior, as formigas picam folhas; e as formigas que moram em árvores.
Uma coruja miou, gosmenta. A coruja quer colóquio.
Sapos se jogam de sua velha pele. Esses são feiticeiros.
O vento muda é para se benzer em cruz.
Há um silêncio, mas que muitos roem, ele se desgasta pelas beiras, como laje de gelo.
Se o senhor quiser ouvir só o vento, só o vento, ouve.
Cada um escuta separado o que quer.
Comentário:
Composição eletroacústica em que colocamos trechos do conto Buriti do Guimarães Rosa (livro Noites do Sertão, que faz parte da trilogia de livros que compõem a obra Corpo de baile). Encontramos um personagem, Mestre Zequiel, que é atormentado pela audição porque pressente a morte chegando pra levá-lo e ele tem que perceber quando ela vier. Ele fica acordado toda a noite e tem longos trechos em que o Guimarães descreve com beleza assombrosa todos os ruídos da noite, de bichos, de águas, de folhas, tudo o que o Mestre ouve a distâncias imensas. “O mundo perdeu suas paredes”.
Isso também é emblemático pra nós: querer atiçar as pessoas a ouvirem música, sons, a lidarem com a Escuta em sentido amplo.
FAIXA 8 – ANA NA CACIMBA
(domínio público, baião de princesas da Casa Fanti-Ashanti)
Ana mora na cacimba
Na cacimba, eh
Ana mora na beira do rio
Na cacimba, eh
música incidental: Tamandaré, Cacimba Nova (melodia de catimbó da Paraíba, anotada por Mário de Andrade)
Tamandaré, cacimba noca
As água toda remói
Comentário:
Junto com o Oriki de Oxum, é representante da água doce no Axial, trabalho composto de muito ar, ventos e águas. Seria uma figura feminina complementar ou oposta a Yemanjá. Ela vive numa cacimba na beira rio. Tem um clima obscuro, de concentração. Nossa harmonização procura traduzir esse clima. Canção gravada também no CD Baião de Princesas, d’A Barca.
FAIXA 9 – VÔ GUERÊ IEMANJÁ
(domínio público, tambor de mina de São Luís do Maranhão em verão de seu Bibi da Casa de Nagô)
Vô guerê Iemanjá
Vô guerê Iemanjá (Orixá)
Olorixá quer
Quereô qüe
‘ Lorixá gueriba
Colé colé mina mi enceô Iamanjá
Aba colé mina mi enceô Iamanjá
Comentário:
Início de uma série de três canções para Iemanjá. Esse arranjo marca uma diferença no CD, com arranjo totalmente acústico para quarteto de saxofones tocado pelo Bando de Campana buscando transpor para a música as ferramentas de talhar usadas para esculpir madeira.
Faixa 10 – ORIKI DE IEMANJÁ
(música: Sandra Ximenez, letra: trecho de oriki nagô-ioruba transcriado por Antônio Risério com inserções de Sandra Ximenez)
Mar, dono do mundo, que sara qualquer pessoa.
Velha dona do mar.
Fêmea-flauta acorda em acordes na casa do rei.
Descansa qualquer um em qualquer terra.
Cá na terra, cala – à flor d’água, fala.
(Cada tua filha, uma ilha
Pétala n’água salgada
Lágrima cristalizada.)
Comentário:
Outra poesia que ganhou melodia em pentatônica criada sobre ostinatos construídos com vozes. É como que um recitativo da próxima canção.
Faixa 11 – IEMONJÁ
(domínio público, 2 cantos para Iemanjá)
Iemonjá awabô
Yemonjá awabô aiô
Yemonjá awabô aiô
Iagba ode ire sê
A ki iê Yemonjá
Iá koko pê ilegbê aiô
Odofi iassa ueré o
Iassa ueré o
Odofi iassa ueré o
Cântico do Candomblé da Casa Fanti-Ashanti
Iá o lejê lejô
Ia o ki é
Olomi/ Assessu
Iá querê o lodô a oiô
Iemonjá fore só
Corón guegué
Iá ca mamb’oridum mo jaê
Iemonjá
Oridum
Orilé
A oiô
Comentário:
Iemanjá é mar, azul, fertilidade, mãe, água salgada geradora de toda a Vida. Gravamos muitas vozes pra chegar num feminino mais explícito.
FAIXA 12 - CANTIGAS D’ÁGUA
(Reisado de Alagoas, três canções de Mestra Virgínia de Moraes)
Oh minha gente eu vi
As nuvens virando eu vi
O vento ventando eu vi
A terra girar
Minha pegada se apaga
Naquela areia quem anda
Em terra alheia pisa
No chão devagar
Eu vou buscar Rei Salomão
João Quitel estava de lado
Eu abro os quatro cadeados
É com a chave do tesouro
A minha chave é de ouro
Eu dei à mestra Virgìnia
Abre-te sede divina
À minha mestra porque ela é tira-couro
Determinei subir no vento
Eu fui ao país da Lua
Arrecebi uma friagem tua
Eu vi a terra diferente
Um corisco ia passando de repente
Com o corisco eu me abracei
Desci pra terra eu aprantei
Aprantei pra nascer semente
O arco-íris bebe água lá no mar
Quando ele quer despejar
Ela por cima da terra
A nuvem gela faz sua circulação
Quando ela cair no chão
A gente apanha e bebe ela.
Comentário:
Para fechar o CD escolhemos essas canções da Mestra Virgínia que transitam por um universo surrealista criado por ela, trazem imagens relembrando muito do que já foi descrito nas canções anteriores, e acabam com um perfeito Ciclo das Águas. Harmõnicos de um contrabaixo acústico gerados pela fricção forçada da crina do arco serviram para sugerir essa idéia de vôo e madeira simultaneamente.
FAIXA 13 – SONO BOM
(música: Felipe Julián, letra: Sandra Ximenez)
Sono bom trás tua mão
pousa sobre o meu amor.
Eu me esqueço me refaço
descanso nos sonhos seus
como nuvem em tom de cinza
acima da tempestade.
Corpo transcriado em vento
ser do vento, umidade.
Aproximo etéreo ser,
sopro em sua majestade.
Me abandono, sono bom,
e recosto, noite calma,
coração no coração.
E se perdem nossas almas
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